

CADÊ OS EVANGÉLICOS?Quando a fé vira instrumento de poder Existe uma pergunta que precisa ecoar nas igrejas, nas ruas e nas consciências: até onde pode ir um líder religioso quando decide misturar o altar com os interesses da política? A fé deveria ser um caminho de esperança, solidariedade e amor ao próximo. Entretanto, quando um pastor apresenta determinado candidato como o escolhido de Deus, como se tivesse recebido uma autorização divina para governar o Brasil, é preciso perguntar: quem lhe concedeu o direito de falar em nome de Deus? Nenhum político se torna santo porque recebe o apoio de um pastor. Nenhum candidato está acima das leis porque frequenta uma igreja. E nenhuma pessoa deveria ser considerada inimiga de Deus simplesmente porque vota de maneira diferente. O problema começa quando a consciência do fiel deixa de ser respeitada. Em vez de apresentar propostas, discutir projetos e examinar a vida pública dos candidatos, alguns líderes preferem transformar o púlpito em palanque e a fé em instrumento de convencimento eleitoral. E o eleitor? E a liberdade de consciência? E a responsabilidade de cada cidadão diante das urnas? Quem pede o voto do povo em nome de Deus também precisa aceitar perguntas, prestar esclarecimentos e responder por suas próprias escolhas. A pergunta que fica é esta: cadê os evangélicos que defendem a verdade, a justiça, a honestidade e o respeito à democracia? Onde estão aqueles que não aceitam que a religião seja usada para encobrir erros políticos? Não se trata de condenar os evangélicos. Pelo contrário! Trata-se de respeitar milhões de pessoas que trabalham, criam seus filhos, ajudam os necessitados e procuram viver sua fé com sinceridade. Também não se trata de declarar culpado qualquer político por causa de uma disputa eleitoral. Acusações precisam ser examinadas, provas precisam ser apresentadas e a Justiça precisa cumprir seu papel. Mas uma coisa é indiscutível: o voto pertence ao cidadão. A igreja não é propriedade de partido algum, e Deus não precisa de cabo eleitoral. Se um candidato perde uma eleição, deve-se respeitar o resultado legítimo das urnas. Se existem suspeitas de irregularidades, que sejam investigadas. Se há crimes comprovados, que a lei seja aplicada. A democracia não pode depender da santificação de políticos nem da condenação antecipada de adversários. E quanto aos pastores? A responsabilidade de quem orienta uma comunidade é ainda maior, porque a palavra de um líder pode influenciar pessoas que depositam nele confiança espiritual. O púlpito deve ser lugar de orientação, acolhimento e esperança — não uma máquina de fabricar obediência política. Por isso, a pergunta continua: cadê os evangélicos que não aceitam a manipulação da fé? Cadê os pastores que ensinam seus fiéis a pensar, investigar e decidir livremente? A verdadeira fé não teme perguntas. A verdade não precisa de ameaças. E a democracia não precisa de falsos profetas. Que cada cidadão examine os fatos, escute diferentes vozes e escolha com consciência. Porque, quando a religião se transforma em instrumento de poder, não é somente a política que precisa prestar contas: é também a consciência de quem usa o nome de Deus para pedir aquilo que deveria ser conquistado com argumentos e propostas. A fé não é curral eleitoral. A Bíblia não é título de propriedade sobre o voto. E nenhum pastor é dono da consciência do povo. Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 28/10/2026
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