

O BRASIL NÃO PODE ESQUECER
[Abertura — viola ligeira, pandeiro e riso de feira]
Minha gente, preste atenção, Que o cordel vai começar: Setecentas mil histórias Não se podem apagar. Quando a memória bate à porta, Não adianta disfarçar! Ô Brasil de tanta fala, De promessa e explicação, O povo pede resposta, Respeito e prestação. Pois quem manda neste terreiro Deve honrar a obrigação! [Verso 1] Foi pandemia, foi tristeza, Foi silêncio no portão, Família sem despedida, Hospital em aflição. E o povo perguntando: “Cadê a coordenação?” Cada vida era um universo, Cada ausência, uma ferida, Não cabe em tabela fria A saudade de uma vida. Setecentas mil histórias Na memória reunida. [Refrão — coro de feira] Ô Brasil, não vá esquecer, Que o povo quer entender! Se a conta ficou comprida, Quem cuidou deve responder. Não é caça, nem vingança: É direito de saber! Ô Brasil, abra o arquivo, Deixe a luz aparecer! Com documento e transparência, Todo fato há de se ver. Quem governa tem dever De explicar e esclarecer! [Verso 2 — contratos e confusão] No Lago Paranoá, Houve assunto e discussão, Barco, encontro, comentário, Muito ruído na ocasião. Mas conversa não é prova: Apure-se a situação! Covaxin, Pfizer na pauta, Vacina virou questão. Enquanto o povo esperava, Crescia a preocupação. Contrato bom é transparente, Sem segredo e sem enrolação! Se há papel, que se examine, Se há indício, investigar. Não se julga por boato, Nem se manda acusar. Mas também não se arquiva Só porque dá trabalho olhar! [Refrão — coro respondendo] Ô Brasil, não vá esquecer, Que o povo quer entender! Se a conta ficou comprida, Quem cuidou deve responder. Não é caça, nem vingança: É direito de saber! [Verso 3 — relógios e acusações] Relógio, gasto e presente Viraram grande folhetim, Cada lado conta um conto, Cada fala chega ao fim. Mas acusação sem prova É fumaça no jardim. “Rachadinha” vira mote, Corre solta no salão, Mas palavra não condena, Nem substitui apuração. Devido processo é remédio Contra a pressa e a confusão. Se existe suspeita séria, Que se faça a verificação. Com perícia, documento, Testemunha e conclusão. A justiça não é circo, Nem palanque de ocasião! [Ponte — viola mansa e voz de lamento] Uma mãe guarda a saudade, Um filho lembra o pai, A dor não pede partido, Nem pergunta de onde sai. Quando a morte bate à porta, Nenhum discurso a desfaz. Que a tristeza vire alerta, Que a ciência tenha vez, Que o cuidado seja público, Sem descaso ou timidez. E que a próxima emergência Não encontre o país outra vez Com promessa em vez de plano, Com disputa em vez de ação, Com discurso atravessado E atraso na proteção. Povo não é figurante Na novela da gestão! [Verso 4 — sátira de resistência] Da favela ao sertanejo, Da cidade ao interior, Todo mundo paga a conta, Todo mundo sente a dor. Mas na hora da resposta, Some o grande administrador! Um diz: “Foi culpa do outro!” Outro: “Eu nada pude fazer!” E o povo, com a calculadora, Tenta a conta compreender. Se ninguém assume o erro, Quem vai mesmo responder? Democracia é cobrança, É pergunta sem temor, É fiscalizar o poderoso, Seja qual for sua cor. Sem calúnia e sem mentira, Mas também sem favor! [Refrão final — coro forte e palmas] Ô Brasil, não vá esquecer, Que o povo quer entender! Setecentas mil histórias Não se podem esconder. Com memória e consciência, A verdade há de aparecer! Não é ódio, nem vingança, É respeito e esperança! Não é guerra, é cidadania, É justiça na balança! Quem tem cargo e autoridade Presta contas à confiança! [Final — viola diminuindo, coro em resposta] Setecentas mil vidas, Setecentas mil memórias, Não cabem em desculpas Nem em frases provisórias. O poder passa ligeiro, Mas ficam as histórias. Se o discurso é muito bonito, Que venha a comprovação. Se a promessa é tão perfeita
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 24/10/2026
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