Sol Flamejante do Sertão

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Textos

O IATE, O ROLEX E A MORTE: O CORDEL DA PANDEMIA
1.
Vou puxar minha viola,
Que hoje o verso vem quente,
Vou cantar uma história
Que machucou muita gente,
Quando a morte fez morada
No coração dessa gente.

2.
Foi no tempo da pandemia,
Tempo triste e doloroso,
O Brasil perdia vidas
Num cenário tenebroso,
E o povo queria amparo
Num momento angustioso.

3.
Hospital superlotado,
Família sem despedida,
Tinha abraço proibido,
Tinha esperança ferida,
Cada número da conta
Era uma preciosa vida.

4.
Setecentas mil partidas,
Setecentas mil saudades,
Quantas mães ficaram sós,
Quantas foram as maldades
De um destino tão cruel
Que abalou nossas cidades!

5.
Mas enquanto o povo pobre
Enfrentava a agonia,
A política era assunto
Que fervia noite e dia;
E o cidadão perguntava:
Quem cuidava da maioria?

6.
Lá no Lago Paranoá,
Um iate entrou na conversa,
E a notícia foi rodando
Pela política diversa;
Quando o povo está de luto,
Toda pergunta atravessa!

7.
Eu não julgo por boato,
Nem condeno sem razão,
Mas quem recebe mandato
Deve dar explicação;
Cargo público não é
Coroa de estimação!

8.
Covaxin e Pfizer
Viraram tema nacional,
Vacina era esperança
Num cenário desigual;
Contrato público exige
Clareza profissional!

9.
Se aparece uma suspeita,
Que se apure com rigor;
Nem se inventa um culpado,
Nem se esconde o que causou
Dúvida na consciência
De quem o voto entregou.

10.
E o Rolex entrou na roda,
O almoço deu conversa,
Cada notícia política
Fez a discussão mais diversa;
No tribunal da fofoca,
A sentença é muito avessa!

11.
Tem denúncia de rachadinha
Que exige apuração,
Pois acusação não prova
A culpada conclusão;
Mas transparência é dever
De quem exerce função.

12.
O matuto olha a cena
E coça o queixo, intrigado:
“Se o pobre deve imposto,
Tem seu nome fiscalizado,
Por que o homem lá de cima
Não pode ser questionado?”

13.
Não se trata de vingança,
Nem de ódio partidário,
É cobrar de quem governa
O dever necessário;
Quem administra dinheiro
Presta conta ao povo diário!

14.
Tem político que promete
Resolver tudo num dia,
Faz discurso, bate no peito,
Vende sonho e fantasia;
Mas na hora da cobrança,
Some a voz, falta energia!

15.
E o sertanejo pergunta,
Com seu humor afiado:
“Se o poder fosse uma feira,
Quem seria o feirante honrado?
E quem vende explicação
Com o preço superfaturado?”

16.
A viola dá risada,
Mas não ri da dor alheia,
Pois a morte não é piada,
Nem tristeza é coisa feia;
A sátira mira o poder,
Não quem sofre e cambaleia.

17.
Setecentas mil histórias
Não se apagam com eleição,
Não se escondem nas manchetes,
Nem se enterram no sermão;
A memória é patrimônio
Que pertence à população.

18.
Se algum poderoso pensa
Que o povo vai esquecer,
Saiba que a nossa memória
Tem raízes pra valer;
Pode o tempo mudar tudo,
Mas há contas a esclarecer!

19.
Que a Justiça faça o exame
Sem pressão e sem favor,
Que a verdade seja o norte,
Que a lei tenha seu valor;
Nem blindagem para amigo,
Nem condenação por rumor!

20.
Vou guardar minha viola,
Mas deixo esta conclusão:
Setecentas mil ausências
Não cabem numa eleição;
O poder passa, a memória fica,
E o povo exige explicação!
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 24/10/2026
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