Sol Flamejante do Sertão

Aprecie sem moderação

Textos

O IATE, O ROLEX E OS 700 MIL MORTOS
Uma crônica de indignação diante da tragédia da pandemia

Dia 16 de julho de 2020. O Brasil atravessava um dos períodos mais sombrios de sua história recente. Em plena pandemia, cerca de 1.300 brasileiros morriam por dia. Mais tarde, o país ultrapassaria a marca de 700 mil vidas perdidas para a Covid-19.

Eram pais, mães, filhos, avós, irmãos e amigos. Eram histórias interrompidas, famílias despedaçadas e despedidas que, muitas vezes, nem sequer puderam acontecer com dignidade.

Enquanto milhões de brasileiros lutavam para sobreviver, uma pergunta se impunha: o que faziam aqueles que deveriam representar o povo brasileiro?

Na narrativa que deu origem a esta crônica, o foco recai sobre o senador Flávio Bolsonaro e episódios que levantaram questionamentos políticos e públicos. Entre as referências estavam um passeio de iate no Lago Paranoá, a presença de pessoas descritas como lobistas, as controvérsias envolvendo a Covaxin e as negociações para a compra de vacinas da Pfizer.

Também surgiam referências à crise de oxigênio no Amazonas, ao valor de um almoço, a um relógio Rolex e às acusações de rachadinha e investigações de corrupção relacionadas ao ambiente político da família Bolsonaro.

Cada um desses episódios exige apuração e contexto próprios. Acusações não são condenações, e a crítica política não precisa inventar fatos para ser contundente.

Mas existe uma pergunta que permanece acima das disputas partidárias: como não se indignar diante de uma tragédia humana dessa dimensão?

Setecentas mil mortes não são apenas um número numa planilha. São setecentas mil histórias de vida, multiplicadas pela dor de incontáveis familiares e amigos.

Para quem perdeu alguém durante a pandemia, a lembrança não desaparece com o fim das manchetes. Fica a cadeira vazia, o telefonema que nunca mais chega, o abraço que não pôde ser dado e a saudade que não encontra explicação.

É por isso que a memória precisa ser preservada. É por isso que os homens públicos devem ser cobrados. E é por isso que a democracia precisa de cidadãos capazes de questionar, investigar e exigir responsabilidade de quem ocupa o poder.

O FECHAMENTO — A DOR QUE NÃO SE APAGA

Se você perdeu um parente, um amigo durante a pandemia, não tem como não se indignar.

Não há como olhar para as 700 mil vidas perdidas e tratar aquela tragédia como se fosse apenas mais um capítulo da política brasileira.

A dor das famílias merece respeito. A memória dos mortos exige responsabilidade. E quem pretende governar este país precisa compreender que a Presidência da República não é prêmio de família, herança política nem brinquedo de quem deseja o poder.

É uma responsabilidade imensa diante de um povo que sofreu, chorou e enterrou seus mortos.

Não há como imaginar que um indivíduo desses possa ser presidente da República sem que a sociedade examine, com rigor, sua trajetória, suas atitudes e sua responsabilidade pública.

Porque quem perdeu um pai, uma mãe, um filho ou um amigo não pode ser obrigado a esquecer. E um país que esquece suas tragédias corre o risco de repetir seus erros.

Muito obrigado.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 24/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras