Sol Flamejante do Sertão

Aprecie sem moderação

Textos

O TRABALHADOR, O PATRÃO E A MATEMÁTICA DA SOBREVIVÊNCIA
1. O trabalhador fez a proposta

O trabalhador chegou cedo,
Com coragem e opinião:
— Seu patrão, de hoje em diante,
Quero outra negociação!
Não quero ganhar mais por dia,
Quero por hora, meu patrão!

O patrão coçou a cabeça,
Deu um sorriso amarelo:
— Você tem esse direito,
Vou fazer o cálculo belo!
Mas quantas horas por dia
Quer trabalhar no meu castelo?

— Quero trabalhar três horas,
Não quero mais me acabar!
Duas horas pela manhã,
Quando o sol vai devagar,
E uma hora pela tarde,
Antes do calor apertar!

O patrão pegou a caneta,
Fez a conta com cuidado:
— Se a hora custa sete e trinta e sete,
Seu salário está calculado!
Três horas dão vinte e dois e onze,
E o mês fica apertado!

2. A matemática entrou no terreiro

Vinte e dois reais por dia,
Multiplique por cinco, então:
Cento e dez reais e cinquenta e cinco
É o valor da semana em questão!
Mas quem vive de salário
Precisa fazer outra conta, patrão!

Vinte e dois dias de trabalho,
Na conta que ele apresentou,
Quatrocentos e setenta e oito e oitenta e cinco:
Foi o valor que calculou!
O trabalhador olhou a cifra
E quase se desmanchou!

— Patrão, me diga uma coisa,
Sem maldade, por favor:
Com aluguel, água e luz,
Com comida e com calor,
Como é que eu sustento a família
Com esse dinheiro, senhor?

O patrão respondeu sério:
— A conta eu sei calcular,
Mas você precisa entender
Que três horas vão gerar
Menos dinheiro no fim do mês
Do que um dia inteiro a trabalhar!

O matuto abriu um sorriso,
Com ironia e reflexão:
— Pois agora eu compreendo
Essa matemática, patrão!
O salário não é milagre:
É trabalho e remuneração!

3. O Fiscal do Picadeiro aparece

Foi então que, lá da praça,
Veio o Fiscal do Picadeiro,
Com seu livro de promessas
E um lápis no bolso traseiro:
— Vamos estudar essa conta,
Que o assunto é brasileiro!

— Uma coisa é matemática,
Outra é legislação;
Uma é escolher sua jornada,
Outra é a contratação.
Direito não é favor
Concedido pelo patrão!

O fiscal abriu o livro:
— Cidadão, preste atenção!
No Brasil existem leis
Que regulam a relação.
Nem o patrão pode tudo,
Nem se ignora a produção!

A Constituição protege
O trabalho e a dignidade;
A legislação estabelece
Regras de jornada e igualdade.
Conhecer os próprios direitos
É dever de cidadania!

4. A sátira dos discursos

O político no palanque
Prometeu prosperidade:
— Todo mundo vai ter renda,
Emprego e oportunidade!
Mas o povo quer saber
Onde mora a realidade!

Prometeu escola boa,
Saúde de qualidade,
Transporte que não atrase,
Moradia e dignidade.
Depois da eleição, sumiu
Com tamanha facilidade!

O fiscal bateu o lápis:
— Eu não vim fazer fofoca!
Quero ver a prestação,
Quero a obra, não a troca!
Promessa sem resultado
É balão que o vento desloca!

Se o discurso é tão bonito,
Se a proposta é genial,
Por que falta o necessário
Na periferia e no rural?
Política sem fiscalização
Vira um circo nacional!

5. A lição do trabalhador

O matuto ergueu a voz:
— Aprendi a lição, patrão!
Não basta olhar o dinheiro
Que aparece na mão.
Preciso saber meus direitos
E entender cada condição!

Se eu trabalho poucas horas,
Meu ganho pode diminuir;
Se trabalho a jornada inteira,
Mais dinheiro pode vir.
Mas sem descanso e sem respeito,
Ninguém consegue prosseguir!

O fiscal respondeu firme:
— É preciso ponderar:
Tem jornada, tem contrato,
Tem direitos a respeitar.
Não é só fazer a conta:
É saber como trabalhar!

E o povo que está ouvindo
Também deve compreender:
Quem conhece seus direitos
Tem mais força pra escolher.
Cidadania não é favor:
É participar e exercer!

6. O livro das promessas

O fiscal abriu seu livro,
Na praça, diante da gente:
— Quero escola funcionando,
Quero atendimento decente,
Quero obra bem-feita
E orçamento transparente!
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 23/10/2026
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