Sol Flamejante do Sertão

Aprecie sem moderação

Textos

EU, O VENTO, OS PÉS DE CASTANHOLA E AS GAIVOTAS
Quando a natureza resolve escrever com a gente

Há dias em que a gente sai de casa sem imaginar que vai voltar com uma história inteira dentro da cabeça. Em Mongaguá, no litoral paulista, basta caminhar pela orla para descobrir que a natureza é uma escritora incansável. Ela não usa papel, não precisa de caneta e tampouco pede licença para começar sua narrativa. O vento sopra, as ondas batem na areia e as gaivotas desenham suas frases no céu.

Naquele dia, o vento estava especialmente atrevido. Vinha do mar, levantava a brisa, bagunçava os cabelos dos caminhantes e parecia querer conversar comigo. Eu seguia pela orla, observando o movimento da praia, quando percebi que meus pés marcavam um ritmo próprio. Batendo no chão, um após o outro, pareciam duas castanholas acompanhando uma música que só eu conseguia ouvir.

Foi então que olhei para o céu.

As gaivotas sobrevoavam a praia, planando sobre as pessoas, como bailarinas que não precisavam de palco nem de aplausos. Algumas voavam baixo, outras subiam em direção às nuvens, aproveitando as correntes de ar. Pareciam conhecer todos os segredos do vento.

Fiquei imaginando o que diriam se pudessem falar.

Talvez uma perguntasse à outra:

— Companheira, você viu aquele senhor caminhando ali? Parece que está dançando!

E a outra responderia:

— Vi, sim! Acho que ele está ensaiando para um baile. Só não descobri ainda quem está tocando a sanfona!

Dei uma risada sozinho. Afinal, não é todo dia que a gente vira personagem de uma conversa imaginária entre gaivotas.

O vento continuava soprando, e eu seguia no meu compasso. Meus pés eram as castanholas, o mar fazia a percussão e as ondas marcavam o tempo. No alto, as gaivotas completavam a orquestra, executando uma coreografia que nenhum maestro seria capaz de reproduzir.

Naquele instante, pensei em como a vida é curiosa. Nasci em Assaré, no sertão do Ceará, terra de poesia, de chão quente, de mandacarus e de gente acostumada a enfrentar as dificuldades com coragem. Hoje, diante do mar de Mongaguá, encontro outra paisagem, outro horizonte e novas maneiras de alimentar a imaginação.

O sertão me ensinou a resistir. O mar me ensina a contemplar.

E o vento? Esse parece ser um velho amigo que não respeita fronteiras. Passa pelo sertão, atravessa cidades, brinca com as árvores e chega à praia trazendo notícias de lugares que meus pés talvez nunca tenham conhecido.

Continuei caminhando, enquanto as gaivotas seguiam seu voo. Por alguns instantes, esqueci as preocupações, os compromissos e as notícias que diariamente disputam nossa atenção. Fiquei apenas com o som das ondas, a brisa no rosto e aquela música improvisada que meus pés insistiam em tocar.

Foi quando compreendi que a felicidade nem sempre chega fazendo barulho. Às vezes, ela vem disfarçada de passeio, de vento frio, de um bando de gaivotas ou de uma gargalhada provocada por uma ideia sem pé nem cabeça.

Talvez seja por isso que gosto tanto de escrever. A vida oferece as cenas, a natureza prepara o cenário e o poeta entra com a imaginação. O resto acontece quase sozinho.

Naquela manhã, não precisei procurar inspiração em livros, jornais ou acontecimentos extraordinários. Ela estava ali, diante dos meus olhos, voando sobre a orla de Mongaguá.

E eu, um sertanejo de alma inquieta, caminhei mais um pouco, deixando que meus pés continuassem tocando suas castanholas imaginárias.

As gaivotas se afastaram em direção ao horizonte. O vento seguiu seu caminho. O mar continuou cantando a velha canção das ondas.

E eu trouxe tudo comigo.

Porque o poeta pode até sair de casa sem saber o que vai escrever, mas, quando aprende a escutar a natureza, sempre volta com alguma coisa para contar.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 21/10/2026
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