Sol Flamejante do Sertão

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O GATO VEIO DO SERTÃO E A GATA VÉIA DO JUAZEIRO
Lá na cidade de Assaré,
No meu tempo de rapaz,
Eu namorei uma menina,
Que me queria demais,
Chamava-me de gatinho,
Dos seus sonhos e ideais!

Eu era um gato faceiro,
Cheio de disposição,
Cláudia era minha gata,
Dona do meu coração,
Mas o destino traçou
Outra estrada e direção!

De Assaré fui pra Fortaleza,
Depois fui pra São Paulo morar,
A vida abriu seus caminhos,
Tive muito que enfrentar,
E a gatinha ficou longe,
Sem saber quando eu ia voltar!

Passou década após década,
Foi-se o tempo de sonhar,
Sessenta anos se passaram,
Sem a gente se encontrar,
Até que em Juazeiro do Norte
O destino quis brincar!

Eu andava em Juazeiro,
Sem pensar no meu passado,
Quando avistei minha Cláudia,
Com seu grupo aglomerado,
Meu coração deu um pulo:
Era o amor aposentado!

Cláudia olhou para as amigas
E falou com emoção:
— Esse foi meu primeiro namorado,
Dono do meu coração!
Eu chamava ele de gato,
Meu gatinho do sertão!

Uma amiga olhou pra mim,
Fez análise ligeira:
— Minha filha, esse teu gato
Já mudou a pelagem inteira!
Tu esperaste sessenta anos,
Pra encontrar essa caveira?

Eu quase caí de costas,
Foi difícil me aguentar,
Pois a língua daquela amiga
Não queria descansar:
O gatinho que era novo
Já não tinha o mesmo andar!

Outra amiga entrou na roda,
Com malícia e animação:
— Cláudia, tu também já és
Uma gata de estimação!
Por que não juntam os bigodes
E formam um casalzão?

— Tu estás vivendo sozinha,
Ele também, pelo visto,
Vocês dois já têm história,
Têm saudade e têm registro,
Vão passear juntos na praça,
Que romance nunca é extinto!

— Vão miando pela rua,
Sem vergonha e sem parar,
Um responde lá do banco,
O outro começa a miar,
Se aparecer um telhado,
É só os dois se ajeitar!

Minha gente, naquele instante,
Eu perdi minha postura,
Era tanta piada junta,
Era tanta desenvoltura,
Que até minhas sete vidas
Se esconderam da figura!

Eu pensei: “Meu Deus do céu,
Que destino engraçado!
Saí jovem de Assaré,
Voltei velho e consagrado,
Não sou mais gato de luxo,
Sou felino reformado!”

Cláudia ria com as amigas,
Eu ria sem ter defesa,
Cada frase era uma flecha,
Cada riso uma surpresa,
A conversa transformou
Meu passado em fortaleza!

Não havia maldade nelas,
Era apenas brincadeira,
Mas a língua dessas moças
Não tinha freio nem coleira,
Se eu ficasse mais um pouco,
Virava gato de feira!

Uma dizia: “Olha o gato!”
Outra: “Olha a gata também!”
“Depois de sessenta anos,
Esse amor ainda vem?”
Eu pensei: “Se for namoro,
Quero saber se convém!”

Pois o tempo não perdoa,
Vai mudando a aparência,
Mas conserva certas coisas
Bem guardadas na consciência:
Uma lembrança da juventude
Tem sabor de permanência!

Eu já não sou o rapaz
Que corria pelo sertão,
Nem Cláudia é aquela moça
Que encantou meu coração,
Mas a vida nos presenteou
Com uma bela recordação!

Hoje, quando lembro disso,
Dou risada sem parar,
Basta recordar as amigas
E o seu jeito de falar:
“Vão os dois miando juntos,
Que ainda dá pra namorar!”

Se eu sair com minha Cláudia,
Vou de terno e sapato,
Ela põe seu melhor perfume,
Eu penteio o pelo ralo,
E, se alguém chamar de velho,
Digo: “Sou gato de fato!”

Não prometo casamento,
Nem paixão de antigamente,
Mas garanto boas risadas,
Um passeio diferente,
Pois quem sabe envelhecer
Ri da vida alegremente!

MORAL DESTA HISTÓRIA

Quem saiu jovem do sertão
E sessenta anos levou,
Encontrou a gata antiga
E o passado despertou.
O corpo envelhece, amigos,
Mas o humor não se acabou!
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 21/10/2026
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