

O GATINHO DO SERTÃO VOLTOU… SESSENTA ANOS DEPOIS!
O apelido que virou refrão
Na minha juventude, eu morava em Assaré, no Ceará, terra do inesquecível poeta Patativa do Assaré. Naquele tempo, a vida parecia correr mais devagar, os sonhos eram grandes e o coração vivia cheio de esperanças. Foi naquela cidade sertaneja que conheci meu primeiro amor: Cláudia. Eu era jovem, cheio de sonhos e, pelo visto, tinha meus encantos. Tanto que minha namorada me deu um apelido carinhoso, daqueles que a gente nunca esquece: — Meu Gatinho do Sertão! Naquele tempo, eu era o gatinho dela. Não sei se por causa dos meus olhos, do meu jeito de falar ou de alguma qualidade que só ela enxergava. O certo é que o apelido pegou e ficou guardado na memória. Mas a vida não costuma consultar o coração antes de mudar nossos caminhos. Um dia, deixei Assaré e fui para Fortaleza. Mais tarde, segui para São Paulo. Vieram novos lugares, outras experiências, responsabilidades e muitas histórias. A juventude ficou para trás, como uma fotografia antiga guardada numa gaveta. E Cláudia? Ficou no passado, naquele capítulo da vida em que os primeiros amores parecem eternos, mesmo quando o destino decide separar os protagonistas. Os anos foram passando. Dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta… Até que se completaram aproximadamente sessenta anos! Eu já nem imaginava que o destino ainda guardasse uma surpresa tão engraçada para mim. O reencontro que virou samba Foi em Juazeiro do Norte que aconteceu o inesperado: reencontrei Cláudia, minha primeira namorada! Lá estava ela, acompanhada de algumas amigas. Assim que me reconheceu, parece que abriu uma gaveta da memória, encontrou o velho apelido e resolveu apresentá-lo à nova geração de suas companheiras. Apontou para mim e anunciou: — Meninas, vocês sabem quem é esse homem? Foi meu primeiro namorado! Eu chamava ele de meu gatinho. Ele foi embora e me deixou esperando por ele! Pronto! Bastou essa apresentação para o passado sair do esconderijo e o presente começar a preparar a gargalhada. Eu ainda estava assimilando a notícia de que, depois de seis décadas, continuava sendo reconhecido pelo antigo apelido quando uma das amigas de Cláudia resolveu fazer uma avaliação do reencontro. Olhou para mim, examinou meus cabelos, meu rosto e os sinais deixados pelo tempo. Depois, soltou a primeira pérola: — Ah, então esse é o famoso gatinho? Minha filha, esse gato demorou tanto para voltar que já virou gato velho! Minha gente, naquele momento, comecei a sentir que aquela conversa não terminaria tão cedo. Tentei conservar a dignidade. Afinal, um homem pode envelhecer, ganhar cabelos brancos e acumular rugas, mas ainda procura preservar alguma autoridade diante das pessoas. Só que eu estava diante de um grupo de mulheres que não parecia disposto a me conceder nem cinco minutos de trégua. Outra amiga entrou na conversa, dirigindo-se a Cláudia: — Minha filha, você também já virou uma gatinha velha! Está na hora de vocês dois voltarem a se arrumar. Você está sozinha, seu gato não está mais com você. Por que não saem por aí juntos? E, como se não bastasse, veio a sugestão que acabou de desmontar qualquer resistência que ainda me restava: — Vocês vão sair por aí juntos, passeando e miando sem parar! Foi aí que perdi a batalha! Eu não sabia se ria, se respondia ou se procurava um telhado para subir. Afinal, como é que um cidadão, depois de sessenta anos de estrada, consegue se defender de uma acusação dessas? O antigo namorado havia reaparecido, mas, em vez de receber uma homenagem pelos serviços prestados à memória afetiva de sua primeira namorada, estava sendo apresentado como um gato velho que precisava de companhia! Sessenta anos de espera e um refrão de ironias O mais engraçado era a naturalidade com que aquelas mulheres diziam tudo. Não havia maldade, ressentimento ou intenção de ofender. Era uma brincadei
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 21/10/2026
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