Sol Flamejante do Sertão

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O REINO DOS INTOCÁVEIS
Vou contar uma história
De causar indignação,
Tem figurão que se julga
Dono de toda a nação;
Pensa que o cargo é escudo
E a lei, decoração!

Lá no reino dos ternos caros,
Das gravatas importadas,
Tem conversa nos bastidores,
Tem versões bem ensaiadas.
Quando a imprensa faz pergunta,
Surgem caras amarradas!

O sujeito fica importante,
Faz pose de imperador,
Anda cercado de gente,
Tem assessor e bajulador.
Mas, quando chega uma busca,
Todo mundo quer doutor!

A notícia cai na praça,
Começa a especulação,
Cada grupo escolhe um lado,
Cada qual sua versão.
Tem quem julgue antes das provas,
Tem quem peça abafação!

Se o suspeito é meu amigo,
Digo logo: “É perseguição!”
Se o suspeito é meu rival,
Já decreto a condenação!
Essa régua de dois tamanhos
É uma fábrica de ilusão!

O político de estimação
Vira santo de procissão;
Se aparece uma denúncia,
É mentira da oposição.
Mas, se o nome é do contrário,
Já lhe armam a execução!

Tem sujeito que defende
A justiça com fervor,
Desde que a investigação
Não lhe encoste no mentor.
Quer a lei para o vizinho,
Para si pede favor!

E o cidadão lá de baixo,
Sem padrinho e sem brasão,
Tem que juntar documento,
Enfrentar fila e balcão.
Enquanto isso, o figurão
Contrata explicação!

Se houve quebra de sigilo,
É preciso investigar;
Se houve abuso de cargo,
Que a verdade venha à luz.
Mas não se condena alguém
Só porque a manchete seduz!

A sátira aqui não acusa,
Bota a hipocrisia no chão:
Quem exige transparência
Tem que aceitar investigação.
Não existe democracia
Com blindagem de ocasião!

Tem discurso de moral,
Tem sermão de honestidade,
Mas o teste verdadeiro
É agir com igualdade.
Não é posar de correto,
É respeitar a sociedade!

O sujeito grita “ordem!”,
Faz discurso de moral,
Mas, se a regra lhe incomoda,
Chama tudo de vendaval.
Quer a lei como um chicote
Só nas costas do rival!

E o povo, vendo essa cena,
Já conhece o figurão:
Na campanha, beija criança,
Faz promessa e dá a mão.
Depois some quatro anos,
Só reaparece na eleição!

Meu amigo, preste atenção,
Não se venda por bravata:
Quem tem prova, que apresente;
Quem tem culpa, que responda.
Quem é inocente, que se defenda;
Que a Justiça não se esconda!

Não quero santo de terno,
Nem justiceiro de ocasião;
Quero instituição séria,
Com coragem e precisão.
Que o poder não seja escudo
Contra a lei e a Constituição!

E termino esta sátira
Com uma ponta de ironia:
Tem gente que ama a Justiça
Quando ela lhe dá alegria.
Quando a investigação chega,
Descobre a democracia!
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 20/10/2026
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