

O BRASIL NÃO NASCEU PARA SE AJOELHAR
Uma crônica sobre soberania, memória e consciência política
Antônio Laurentino — Sol Flamejante do Sertão Depois de um debate político, certas verdades incomodam. Não porque sejam unanimidades, mas porque obrigam cada um de nós a olhar para a própria consciência e perguntar: afinal, que Brasil queremos construir? É doloroso ver brasileiros que não conseguem reconhecer nenhuma realização de um governo do qual discordam. A paixão política, quando se transforma em cegueira, faz o cidadão esquecer a própria história, desprezar conquistas sociais e tratar como inimigo qualquer pessoa que pense diferente. Luiz Inácio Lula da Silva é uma das figuras mais controversas e influentes da política brasileira. Para seus apoiadores, representa a possibilidade de ascensão social de milhões de pessoas que, durante muito tempo, foram deixadas à margem. Para seus críticos, seu governo deve ser julgado por suas decisões, seus resultados e suas contradições. É justamente por isso que o debate democrático precisa de fatos, argumentos e memória, não apenas de insultos. Durante os governos Lula, programas sociais, políticas de acesso à educação e iniciativas de combate à fome ganharam destaque nacional e internacional. O Bolsa Família, o ProUni, a Farmácia Popular e outras políticas públicas passaram a fazer parte da vida de milhões de brasileiros. Pensemos na família que conseguiu colocar comida na mesa, no jovem que chegou à universidade, no trabalhador que pôde comprar uma passagem de avião pela primeira vez ou na pessoa que encontrou no sistema público de saúde uma possibilidade de tratamento. Essas experiências não encerram a discussão sobre a qualidade das políticas públicas. Mas merecem ser consideradas quando se avalia um governo. Negar qualquer resultado positivo apenas porque se rejeita um presidente é trocar a análise pela paixão partidária. E há uma questão ainda maior: a soberania nacional. Quando uma potência estrangeira impõe tarifas que prejudicam setores da economia brasileira, o assunto deveria ser tratado com seriedade por todos os lados do espectro político. O impacto sobre produtores, trabalhadores, exportadores e consumidores precisa ser examinado com dados, responsabilidade e espírito público. Discordar do presidente é um direito. Criticar suas negociações também. Mas comemorar um prejuízo econômico simplesmente porque ele pode atingir um adversário político é outra história. Afinal, quando a economia brasileira sofre, os efeitos não escolhem a cor partidária de quem precisa pagar as contas. O agricultor que perde mercado tem uma família. O trabalhador que perde o emprego tem compromissos. O pequeno comerciante que vende menos também precisa sobreviver. A bandeira brasileira não deveria ser propriedade de partido algum. Ela pertence a todos os cidadãos, inclusive aos que divergem profundamente sobre os caminhos do país. É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre Lula e passa a ser sobre nós mesmos. Por que, tantas vezes, aceitamos de um político aquilo que condenaríamos em outro? Por que alguns enxergam defeitos apenas no adversário e justificam qualquer erro de quem está do seu lado? Por que a crítica, que deveria servir para aperfeiçoar a democracia, virou instrumento de humilhação? A política precisa de memória, mas também de honestidade intelectual. Se um governo cria uma iniciativa que beneficia a população, devemos reconhecer seu alcance. Se comete erros, devemos apontá-los. Se uma promessa não se cumpre, devemos cobrar. Nenhum presidente está acima da crítica, assim como nenhum cidadão deveria ser tratado como inimigo por causa do voto que escolheu depositar na urna.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 20/10/2026
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