Sol Flamejante do Sertão

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Textos

O POBRE QUE BEIJA O CHICOTE
Cordel satírico do analfabeto político

Antônio Laurentino — Sol Flamejante do Sertão

Vou contar uma história
Que provoca reflexão,
De um sujeito que carrega
A bandeira da nação,
Mas defende o milionário
E despreza o seu irmão!

O cabra acorda cedinho,
Vai trabalhar no batente,
Recebe um salário magro,
Passa aperto e vive ausente
Do banquete dos patrões,
Que enriquecem novamente!

Quando o preço do feijão
Sobe mais que um foguetão,
Ele xinga o vizinho pobre,
Bate no peito, valentão,
Mas não cobra do sujeito
Que lhe aperta o cinturão!

Se o botijão fica caro,
Se encarece o alimento,
Ele culpa a oposição,
O passado e o firmamento,
Mas não olha para o bolso
Nem questiona o orçamento!

Ergue a bandeira brasileira,
Faz discurso de patriotismo,
Mas não percebe que abraça
Seu próprio empobrecimento,
Pois confunde patriotismo
Com político oportunismo!

Diz que pobre não precisa
De auxílio nem proteção,
Que é só ter força de vontade,
Que resolve a situação.
Mas, se o rico perde dinheiro,
Logo pede intervenção!

É um curioso cidadão,
Que merece até estudo:
Defende a meritocracia,
Mas não questiona quase tudo.
Se o patrão lhe paga migalha,
Diz que agradecer é tudo!

Quando alguém fala em direitos,
Ele começa a reclamar:
— Isso é coisa de comunista,
Querem o mundo transformar!
Mas, se o banco toma a casa,
Corre ao Estado pra ajudar!

Na fila do hospital,
Vê a mãe perder a calma,
Mas não liga uma coisa
À outra dentro da alma.
Quer milagre na saúde,
Mas despreza quem lhe ampara!

Se o menino perde a escola,
Se falta oportunidade,
Ele culpa uma professora,
Uma palavra ou novidade,
Mas não cobra investimento
Nem combate a desigualdade!

E quando chega o domingo,
Vai à igreja contrito,
Ouve falar de humildade
E de amor ao pequenino.
Mas tem pastor de jatinho
Vendendo o céu ao pobrezinho!

Não confunda a fé sincera
Com comércio da oração,
Nem transforme o sofrimento
Em negócio de exploração.
Deus não precisa de luxo
Pra escutar um coração!

O cabra grita: — Família!
— Deus, pátria e tradição!
Mas esquece que a família
Também precisa de pão,
De escola, teto e emprego,
De respeito e proteção!

Se o salário perde a força,
Ele não quer investigar;
Culpa quem nem está no governo,
Sem sequer verificar.
E o esperto lá de cima
Continua a faturar!

O rico conta seus lucros,
O trabalhador, suas contas;
Um passeia de iate,
Outro enfrenta filas longas.
E o pobre ainda aplaude
Quem lhe fecha tantas portas!

Mas escute, meu amigo,
Não escrevo por vingança:
O trabalhador merece
Respeito, pão e esperança.
Não é falta de inteligência
Que define uma pessoa;
É preciso abrir os olhos
Pra mudar a vida à toa!

Pois o pobre não é burro
Por pensar diferente, não;
O perigo é não questionar
Quem lhe explora o ganha-pão,
É trocar o pensamento
Pelo grito da eleição!

Não é o pobre o inimigo,
Nem seu vizinho, seu irmão;
É a mentira que divide
Quem precisa de união.
É a injustiça que enriquece
À custa da exploração!

E assim termina o cordel,
Com uma lição verdadeira:
Não basta amar o Brasil
E sacudir sua bandeira.
Pátria não é só discurso:
É justiça a vida inteira!
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 20/10/2026
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