

CURIOSIDADES DE FUNERÁRIA! Entre a última viagem e as gargalhadas do sertão Existem assuntos que muita gente prefere evitar. A morte é um deles. Mas o povo brasileiro, especialmente o nordestino, tem uma capacidade extraordinária de encontrar humor até nas situações mais inesperadas da vida. No sertão, então, nem a morte escapa da língua afiada do povo! Em Assaré, no Ceará, conheci uma dessas histórias que merecem ser guardadas na memória. Meu vizinho era o mestre Jesus Domingo, uma figura conhecida pelas redondezas. Em frente à casa dele, havia uma placa preta, em formato de urna funerária, enfeitada com uma caveira e uma foice. A inscrição era de uma criatividade difícil de esquecer: “ASSIM, VAMOS FAZER A ÚLTIMA VIAGEM COMIGO?” Imagine a cena! A pessoa saía de casa para resolver os problemas da vida, olhava para aquela placa e recebia um convite que ninguém gostaria de aceitar tão cedo! Era uma propaganda funerária que não precisava de grandes explicações. A caveira fazia a apresentação, a foice completava o serviço e a frase deixava o freguês pensando na brevidade da existência. E assim o sertão seguia sua rotina, entre a fé, o trabalho, as dificuldades e aquela maneira bem-humorada de enfrentar até os assuntos mais delicados. Também existem as histórias das funcionárias de funerárias, mulheres que trabalham diariamente com a dor das famílias, mas que, fora dos momentos de sofrimento, convivem com situações tão inesperadas que algumas acabam virando causos. Afinal, trabalhar com a morte não significa perder o senso de humor. Há momentos em que uma frase espontânea, um mal-entendido ou uma expressão popular transforma uma situação comum numa história inesquecível. E quem nunca ouviu uma dessas expressões sertanejas? “Foi dormir Nozinho, quando acordou estava morto!” É o tipo de frase que mistura o absurdo, a ironia e a sabedoria popular numa única sentença. O sertanejo tem esse talento: consegue resumir uma situação inteira em meia dúzia de palavras. A verdade é que a morte é uma certeza da vida, mas isso não significa que precisamos passar a existência inteira falando dela com o rosto fechado. Há respeito pela dor, solidariedade com as famílias e reverência diante da despedida. Mas também há espaço para os causos que nascem da convivência humana e ficam guardados na memória coletiva. No fim das contas, a placa de mestre Jesus Domingo continua viva na lembrança, assim como as expressões que atravessam gerações e as histórias que o povo conta nas calçadas, nas cozinhas e nas rodas de conversa. Porque o sertão tem dessas coisas: transforma lembranças em literatura, acontecimentos em causos e até a última viagem em assunto de crônica. Antônio Laurentino — Sol Flamejante do Sertão Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 18/10/2026
Comentários
|