

A VOZ DE SELMA NA FEIRA DE SÃO JOSÉ DO EGITO Uma crônica sobre dignidade, memória e o direito de escolher Antônio Laurentino — Sol Flamejante do Sertão Numa feira de São José do Egito, no sertão pernambucano, entre o movimento dos feirantes, as conversas atravessadas e o cotidiano de um povo acostumado a enfrentar as dificuldades da vida, aconteceu um encontro que merecia ser registrado nas páginas da história popular brasileira. De um lado, o entrevistador. Do outro, Selma, uma eleitora do presidente Lula. A pergunta não era simples. Era dura, desconfortável, carregada de um preconceito que, de tempos em tempos, atravessa as conversas políticas do país: — Selma, há pessoas no Sul e no Sudeste que dizem que o nordestino vota em Lula porque é ignorante. O que você tem a dizer a essa gente? Era uma pergunta que poderia provocar indignação, silêncio ou uma resposta atravessada. Mas Selma escolheu falar de sua vida, de sua classe social, de sua memória e da maneira como compreende a política. Sua resposta começou com uma palavra que parecia carregar anos de história: dignidade. Ela recordou um tempo em que, segundo sua experiência, faltavam oportunidades e condições de vida para muitas famílias da região. Explicou que sua escolha política não vinha da falta de conhecimento, mas da gratidão, da consciência de classe e da capacidade de comparar o passado com o presente. Selma falou como trabalhadora. Não como alguém que precisasse pedir autorização para pensar, mas como uma cidadã que observava a realidade ao seu redor e tirava suas próprias conclusões. Mencionou o ProUni, programa que ampliou o acesso de estudantes de baixa renda ao ensino superior por meio de bolsas em instituições privadas. Lembrou jovens que, antes, talvez sequer imaginassem a possibilidade de chegar a uma universidade. Falou também da transposição do Rio São Francisco, das adutoras e das iniciativas de abastecimento de água que fazem parte de uma longa luta nordestina contra os efeitos da seca. Para quem conhece o sertão, a água nunca foi apenas um recurso natural. É possibilidade de plantar, de criar animais, de permanecer na própria terra e de sonhar com um amanhã menos incerto. Depois, Selma chegou a outro assunto frequentemente envolvido em disputas políticas: o Bolsa Família. Ela descreveu uma mudança que considerava significativa. Em vez de encontrar tantas pessoas pedindo ajuda de porta em porta, via famílias chegando ao mercado, comprando alimentos e colocando em movimento um dinheiro que também circulava pelo comércio local. Era uma observação cotidiana, feita a partir de sua percepção da comunidade. E havia nela uma questão econômica importante: quando famílias de baixa renda recebem recursos para atender às necessidades básicas, parte desse dinheiro retorna à economia por meio das compras em mercadinhos, feiras e pequenos estabelecimentos. Isso não significa que um programa social resolva sozinho a pobreza, nem dispensa a avaliação de seus resultados. Significa reconhecer que, para quem não tem o suficiente para alimentar a família, uma ajuda pode representar a diferença entre a fome e uma refeição. Selma também expressou uma ideia que merece reflexão: o dinheiro distribuído entre muitas pessoas que precisam consumir pode movimentar a economia de uma maneira diferente daquele concentrado nas mãos de poucos. Era a fala de uma cidadã interpretando a política a partir da própria experiência. Não era preciso concordar com todas as suas conclusões para reconhecer que ela apresentava razões para pensar como pensava. E aqui está o ponto mais importante dessa história. Desde quando o lugar de nascimento determina a inteligência de alguém? Em que momento a origem regional passou a servir como medida da capacidade de interpretar um programa de governo, avaliar uma política pública ou escolher um candidato? O Nordeste não é um território de pensamento único. Seus habitantes têm opiniões diferentes, apoiam partidos distintos, critica Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 18/10/2026
Comentários
|