Sol Flamejante do Sertão

Aprecie sem moderação

Textos

A PROMESSA DO QUINTO DOS INFERNOS!
1. O político chegou
Lá vem o homem engravatado,
Com discurso comovente,
Prometendo um novo mundo,
Casa e pão pra toda gente;
Mas o povo, escaldado,
Já conhece esse repente!
Chega em carro importado,
Com sorriso de ocasião,
Abraça velho e criança,
Faz carinho no povão;
Quando ganha a eleição,
Some feito assombração!
Promete escola de graça,
Hospital de qualidade,
Estrada boa, emprego,
Justiça e prosperidade;
Mas, depois que senta à mesa,
Esquece a necessidade!
2. O quinto dos infernos
Foi aí que um cabra sabido,
Lá do fundo do sertão,
Escutou tanta promessa
E coçou o queixo com a mão:
— Esse homem promete tanto
Que me causa até espanto!
Vai faltar chão neste canto
Pra enterrar tanta ilusão!
Se promessa fosse milho,
Tinha fartura no roçado;
Se promessa fosse chuva,
Tinha açude transbordado;
Se promessa fosse salário,
Ninguém vivia apertado!
Mas promessa não enche prato,
Nem conserta habitação;
Não dá remédio ao doente,
Nem garante educação;
O que vale é o resultado,
Não discurso enfeitado
Pra enganar a população!
3. O diabo pediu a palavra
Lá nas bandas do inferno,
O capeta, intrigado,
Chamou toda a sua equipe
Pra fazer um comunicado:
— Minha gente, estou perdido,
Meu serviço está ameaçado!
Tem político tão sabido
Que me deixa aposentado!
Eu prometo mil tormentos,
Mas não faço propaganda;
Tem sujeito aqui na Terra
Que promete até varanda,
Põe o povo na esperança
E depois desaparece
Quando a cobrança se levanta!
São Pedro, lá do alto,
Escutando a confusão,
Disse: — Não culpe o inferno
Pela nossa situação!
Quem promete e não cumpre
Tem que ouvir a população!
4. O povo acordou
Mas um dia a coisa muda,
Quando o povo abre o olhar;
Quem vivia de esperança
Já começa a perguntar:
— Cadê a obra anunciada?
Cadê a verba aplicada?
Cadê a escola prometida?
Cadê a conta explicada?
O eleitor ganha força
Quando aprende a conferir;
Não basta ouvir promessa,
É preciso exigir;
Quem recebe o voto do povo
Tem dever de o servir!
Não importa a cor da camisa,
Nem o partido ou brasão;
Quem governa deve contas
A quem lhe deu o seu voto na mão.
Pois mandato não é trono,
Nem governo é propriedade
De quem esquece o cidadão!
5. A sentença do sertão
E o matuto deu seu veredito,
Sem precisar de juiz:
— Quem trabalha merece aplauso,
Quem engana não me diz
Que merece outra confiança
Só porque promete ser feliz!
O diabo bateu palmas,
São Pedro deu gargalhada;
E o político, sem resposta,
Saiu de cara amarrada.
Pois a língua do sertanejo
Quando fala a verdade
Não teme fala ensaiada!
6. O recado final
Guarde bem este conselho,
Meu amigo eleitor:
Não escolha só por grito,
Nem por raiva ou favor;
Veja os fatos, cobre as contas,
Dê valor ao trabalhador!
Promessa tem seu momento,
Mas não pode ser troféu;
O povo quer resultado,
Não castelo lá no céu.
Quem governa com respeito
Tem que honrar o seu papel!
E se a promessa for tanta
Que ninguém possa contar,
Já dizia o velho matuto,
Com seu jeito de falar:
— Se não cumprir o prometido,
Vai ouvir o povo gritar:
“Pode levar sua promessa
Pro quinto dos infernos morar!”
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 15/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras