

CRÔNICA CONTRA O RACISMO A mãe de rosa no meio dos tanques É contra o racismo que eu escrevo agora, e não é com tinta, é com sangue na veia. O racismo no Brasil não grita, ele sussurra. Ele não vem de tanque na avenida, ele vem no olhar que atravessa a rua quando vê a mãe de vestido rosa vindo com o filho. Ele vem no segurança que segue o menino de camisa amarela dentro do mercado. Ele vem na professora que já espera menos dele. Essa mãe da nossa capa, ela não está só com medo dos tanques de 64. Ela está com medo de 2026. Com medo que seu filho, que hoje tem 5 anos e está no colo, amanhã com 15 não possa voltar pra casa porque confundiram o boné dele com algo. O racismo é o primeiro tanque que entrou na avenida do Brasil. Antes do tanque de guerra, veio o navio negreiro. E ele nunca saiu da rua. Ele só trocou de cor, trocou de farda. Ele está quando um currículo com foto é jogado no lixo. Ele está quando uma menina alisa o cabelo pra ser aceita. Ele está quando a gente chama de "mimimi" a dor que a gente nunca sentiu. Por isso, quando eu digo "Sessenta e quatro, nunca mais", eu também digo "Racismo, nunca mais". Porque não adianta tirar o tanque da rua se a gente não tira o preconceito do peito. Que o samba que a gente fez pra mãe e pro filho seja um samba de respeito. Que toda criança preta desse país possa andar na avenida sem ser parada, sem ser seguida, sem ser diminuída. Que ela possa andar como dona da rua, porque ela é. Minha crônica é um pedido: olha pra essa mãe de rosa. Não sente pena dela. Sente respeito. E ensina teu filho a respeitar o filho dela. É isso que muda a avenida. Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 11/10/2026
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