

🪢 MEU CORPO NORDESTINO VIVE NA AREIA, MAS MINHA ALMA AINDA PASSEIA PELAS TERRAS DO MEU CEARÁ Cordel de saudade entre o sertão e o mar Antônio Laurentino Sobrinho O Arquiteto das Canções Nasci lá no meu sertão, Onde aprendi a lutar, Onde a seca era professora E ensinava a caminhar; Trago o Ceará no peito, E por mais longe que eu esteja, Ele não deixa de estar. Hoje vivo junto ao mar, Com a Serra por companhia, Vejo o sol nascer na praia, Vejo morrer o fim do dia; Mas quando a saudade chama, Meu coração logo reclama Da minha terra querida. Meu corpo nordestino vive na areia do mar, mas minha alma ainda passeia pelas terras do Ceará. Passeia pelo meu sertão, Pelas pedras e veredas, Pelos caminhos poeirentos, Pelas antigas alamedas; Pelo cheiro do roçado, Pelo canto do gado E pelas velhas lembranças. Lembro a terra de Assaré, Terra de verso e tradição, Onde Patativa cantou A beleza do sertão; Ali cada verso tem Um pedaço de alguém Guardado no coração. Lembro as manhãs do sertão, O céu clareando ligeiro, O canto dos passarinhos, O aboio do vaqueiro; E aquele sol sertanejo Que deixava tudo vermelho No caminho do terreiro. Lembro também meu povo, De coragem e dignidade, Que enfrentava a seca braba Sem perder a esperança e a fé; Porque o sertanejo sabe Que depois da tempestade Sempre pode nascer um dia. Mas a vida me trouxe longe, Para outro canto do chão; Do Ceará fui seguindo Os caminhos da migração; E encontrei na Baixada Outra terra abençoada Para guardar no coração. Aqui encontrei cinco pérolas Brilhando diante do mar: Santos, São Vicente, Praia Grande a encantar, Mongaguá tão querida E Itanhaém, cheia de vida, Todas juntas a cantar. Subo os olhos para a Serra, Vejo a mata verdejante; Ela guarda suas águas Num silêncio impressionante; E me faz pensar também Nos povos que antes de nós Caminharam por diante. Povos originários, Guardiões de ancestralidade, Que conheciam a floresta, A nascente e a liberdade; Seus saberes são sementes Que atravessam muitas gentes E continuam pela idade. A Serra do Mar ensina Que a vida precisa de união: A árvore segura a terra, A nascente alimenta o chão, O rio procura o oceano, E o homem, se for humano, Protege essa criação. Quando caminho na praia E escuto o barulho do mar, Parece que uma voz antiga Começa comigo a falar; É o Ceará me chamando, É minha infância voltando, É meu passado a despertar. Então fecho os meus olhos E começo a recordar: Vejo as pedras do sertão, Vejo o gado a descansar, Vejo o céu da minha infância E sinto aquela fragrância Da terra depois de molhar. Ah, meu Ceará querido, Como é grande essa saudade! Mesmo vivendo tão longe, Tu moras na minha verdade; O tempo pode passar, Mas ninguém consegue apagar Uma raiz de identidade. Hoje tenho outro horizonte, Outro mar para contemplar; Mas se perguntarem meu nome, Eu sei bem como explicar: Sou nordestino de nascimento, sou caiçara por adoção, tenho a Baixada nos olhos e o Ceará no coração. Meu corpo vive na areia, Minha história vive no mar; Mas basta uma lembrança Para minha alma viajar. Ela atravessa montanhas, Cruza estrada e sertão, Passa por Assaré inteiro Na velocidade da emoção; E chega à minha infância Para abraçar a lembrança Que nunca morreu no coração. Por isso eu canto a Baixada, Sem esquecer meu lugar; Porque quem conhece a origem Nunca deixa de lembrar. Sou filho daquela terra Onde aprendi a sonhar; E hoje, junto ao oceano, Continuo a caminhar. Meu corpo nordestino vive na areia do mar, mas minha alma ainda passeia pelas terras do meu Ceará. E se um dia minha voz Já não puder mais cantar, Que fique este meu cordel Para alguém continuar: Que ninguém negue sua origem, Nem tenha medo de lembrar; Porque quem honra suas raízes tem mais força para caminhar. E assim termino dizendo, Com orgulho e emoção: Ceará é minha raiz, Baixada é meu coração; um nasceu dentro do outro na estrada da migração. E enquanto houver céu e mar, enquanto houver poesia, minha alma vai passear pelas terras do C Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 07/10/2026
Comentários
|