Sol Flamejante do Sertão

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TENHO VERGONHA DE MIM

Cordel nordestino de consciência

Eu tenho vergonha de mim,

Confesso sem covardia,

Por ver tanta coisa errada

Se espalhando noite e dia;

E o povo, que já foi forte,

Perder fé na justiça,

Trocar verdade por malícia

E honra por vaidade.

Tenho vergonha de mim,

Por ter sido educador,

Por defender honestidade,

A verdade e seu valor;

Por ensinar que o caráter

É patrimônio sagrado,

E vê-lo abandonado

Por interesse e favor.

Tenho vergonha de mim

Por ver a família esquecida,

Essa célula tão sagrada,

Fundamento de nossa vida;

Quando o ego vira senhor,

O próximo perde o valor,

E o respeito pelo amor

Vai sumindo desta lida.

Tenho vergonha de mim

Por ter ficado calado,

Ouvindo tanta desculpa

Pra justificar o errado;

Tanta fala enfeitada,

Tanta desculpa inventada,

Tanta verdade calada

Diante do fato provado.

Tenho vergonha de mim

Quando vejo a corrupção

Ser chamada de esperteza,

E a virtude, de ilusão;

Quando aquele que é correto

Parece um desatento,

Enquanto o oportunista

Se apresenta como esperto.

Mas não tenho vergonha

Do chão onde eu nasci,

Do sertão da minha infância,

Dos caminhos que percorri;

Tenho orgulho do meu povo,

Da cultura e da raiz,

Do Nordeste que me fez

Ser o homem que hoje sou.

Não tenho vergonha da pátria,

Nem da nossa bandeira,

Nem do hino que emociona

Minha alma brasileira;

Minha vergonha é somente

Quando a mentira floresce

E a verdade desaparece

Por detrás de uma fronteira.

Eu ainda amo este Brasil,

Apesar da decepção;

Amo o povo brasileiro,

Amo nossa imensidão;

Pois a pátria não pertence

A partido ou a poder:

Pertence a quem quer viver

Com justiça e dignidade.

Tenho vergonha de mim

Por sentir-me impotente,

Cansado de ver injustiça

Passando impunemente;

Mas ainda há esperança,

Enquanto houver uma criança

Aprendendo, honestamente,

Que caráter vale mais.

Que ninguém diga ao menino

Que ser honesto é ser bobo;

Que ninguém ensine à criança

A levar vantagem sobre o outro;

Quem planta a desonra

Colhe um futuro sem paz,

E uma sociedade sem ética

Não sabe aonde vai.

Eu venho lá do sertão,

Onde o sol castiga o chão,

Onde a seca ensina ao homem

A lutar com decisão;

Aprendi com meu Nordeste

Que, em terra tão sofrida,

Quem conserva a dignidade

Não perde a própria vida.

Sou filho de uma memória

Que o tempo não apagou;

Meu passado é minha escola,

Foi ela quem me ensinou:

Dinheiro compra as coisas,

Mas não compra dignidade;

A maior riqueza é

Viver com honestidade.

Se hoje digo: “Tenho vergonha”,

Não é vergonha de ser

Brasileiro, nordestino,

Nem de lutar pra viver;

É vergonha de assistir

À virtude ser ferida

E à mentira, tantas vezes,

Ser chamada de verdade.

Mas ainda ergo minha voz,

Mesmo cansado e ferido;

Enquanto houver justiça,

Meu sonho não está perdido;

Enquanto houver coração

Defendendo a educação,

Ainda existe salvação

Para o Brasil tão querido.

Eu tenho vergonha de mim,

Mas não vou me esconder;

Quem ama sua própria terra

Também precisa dizer

Quando alguma coisa está errada,

Sem abandonar a estrada;

Lutar pela verdade

Também é forma de viver.

E deixo aqui meu recado

Com respeito e coração:

Não existe pátria forte

Sem caráter e educação;

Não existe liberdade

Sem respeito e responsabilidade;

Não existe sociedade

Sem justiça e união.

Se algum dia perguntarem

O que deixei nesta jornada,

Direi: deixei minha palavra,

Minha luta e minha estrada;

Talvez não tenha vencido,

Talvez tenha me cansado,

Mas jamais terei vergonha

De ter lutado pelo certo.

Tenho vergonha de mim,

Mas ainda tenho esperança.

Enquanto houver verdade,

Honestidade e confiança;

Enquanto houver professor,

Família, amizade e amor,

O Brasil pode reencontrar

Sua dignidade e esperança.

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CRÉDITOS E HOMENAGEM

Inspirado na obra “Sinto Vergonha de Mim”, de Cleide Canton.

Com referência à célebre passagem de Rui Barbosa sobre a perda da fé na virtude e a vergonha de ser honesto.

Homenagem especial a Rolando Boldrin, que eternizou a obra por meio de sua interpretação e declamação.

Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 07/10/2026


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