

DIA DE GRAÇA E ALEGRIA
Uma crônica depois das urnas
Ontem foi dia de graça e alegria. Levantei bem cedo, tomei meu rumo e fui para o colégio votar. Mas, para minha frustração, encontrei pelo chão uma verdadeira multidão de “diabinhos”, os santinhos de papel espalhados por todos os lados. Olhei, desaprovei e pensei comigo: Quanto dinheiro jogado no chão! Quanto desperdício! Quanta energia perdida, enquanto tanta gente sofre e tantas vidas precisam de atenção. O sol estava flamejante em Sampa, um verdadeiro céu de brigadeiro. Mas, chegando ao colégio, descobri que tinha faltado energia. A fila crescia, o tempo passava, mas eu não pensei em desistir. Eu só queria votar. E votei. Depois encontrei alguns amigos. Conversamos, rimos, e seguimos nosso caminho. Só que o tempo, como quem muda de opinião de repente, também mudou. O céu desabou. Veio uma chuva daquelas, daquelas que parecem querer lavar até as marcas deixadas nas ruas. Mas, em vez de levar embora os “diabinhos”, a enxurrada juntou tudo: santinhos, diabinhos, folhas, lixo... Tudo misturado. A água carregava o papel pelas ruas e muitos daqueles restos de campanha foram parar nas bocas de lobo, entupindo os bueiros. As ruas no entorno do colégio ficaram completamente alagadas. O trânsito virou um inferno. Carros parados, motoristas impacientes, ruas sem condições de tráfego. E eu só pensava em uma coisa: pegar a estrada e voltar para minha casa, em Mongaguá. Finalmente cheguei. Tomei meu banho, respirei fundo e fiquei esperando a resposta das urnas. Mas o resultado não foi o que eu esperava. E confesso: fiquei frustrado. Não apenas pelo resultado, mas pela sensação de ver pessoas humildes defendendo políticos e ideias que, na minha visão, não representam os seus próprios interesses. Então fiquei pensando... Talvez a política brasileira seja também um espelho. Um espelho que mostra não apenas os políticos, mas aquilo que nós, brasileiros, estamos dispostos a aceitar. E lembrei de uma frase que nasceu dessa minha reflexão: Quanto mais conheço certos seres humanos, mais admiro os cachorros das ruas de Mongaguá. Eles não fazem campanha. Não prometem nada. Não têm partido. Não espalham santinhos. Apenas procuram um lugar para dormir, um pouco de comida e alguém que lhes ofereça carinho. Talvez eles saibam uma coisa que nós, humanos, às vezes esquecemos: lealdade não precisa de discurso. Respeito não precisa de propaganda. E amor não precisa de urna. Ontem eu fui votar. Hoje continuo pensando. Porque uma eleição termina quando as urnas são fechadas. Mas a democracia continua todos os dias. E talvez o maior desafio do Brasil não seja apenas escolher seus governantes. Seja aprender a não jogar fora, junto com os “diabinhos” de papel, a própria consciência.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 06/10/2026
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