

NAS ESCADARIAS DO MUNICIPAL
Um cordel pela Semana de Arte Moderna
Saí do Parque Trianon numa manhã de emoção, com Sampa dentro da alma e saudade no coração. Fui seguindo pela Paulista, sem saber onde parar, quando avistei o Municipal e parei para contemplar. Nas escadas do Municipal, que beleza encontrei! Parecia que o passado de repente encontrei. Mário e Oswald de Andrade pareciam conversar, e Anita Malfatti sorria como quem vinha pintar. “Cadê a poesia, Oswald? Que o povo quer escutar!” E Anita, com suas cores, já começava a inspirar. Menotti Del Picchia chegava, trazendo verso e opinião, e Graça Aranha abria as portas da renovação. Di Cavalcanti desenhava um Brasil cheio de cor, Villa-Lobos, no seu piano, transformava música em flor. Guiomar Novaes tocava com delicada emoção, e Brecheret dava à pedra forma, vida e expressão. Ronald de Carvalho chegava com poesia no olhar, Guilherme de Almeida trazia seus versos para declamar. Sérgio Milliet conversava, Tácito veio também, e a velha arte perguntava: “Que novidade eles têm?” Tinham coragem de sobra, tinham vontade de mudar, queriam uma arte brasileira que pudesse se libertar. Era fevereiro de vinte e dois, São Paulo em transformação, e o Theatro Municipal virava palco da inovação. Anita estava presente, com sua pintura a provocar, Zina Aita também estava com sua arte a encantar. Vicente do Rego Monteiro trazia sua criação, e Victor Brecheret mostrava a força da sua expressão. E eu fiquei ali parado, sem saber o que dizer, vendo tantos grandes nomes que fizeram acontecer. Parecia que a própria história tinha descido do papel e sentado nas escadarias do velho Municipal. Mas procurei por Tarsila, queria vê-la chegar... Disseram: “Ela está distante, em Paris, a estudar.” Mesmo não estando presente na Semana, pode crer, seu nome viria depois no Modernismo florescer. E então compreendi, Sampa, naquela tarde encantada: uma cidade guarda histórias que não morrem na calçada. Cada rua tem memória, cada praça tem paixão, e o passado quando volta bate forte no coração. Saí dali lentamente, com vontade de escrever, pois quem encontra essa história tem mais história pra viver. Levei comigo os poetas, os pintores e a canção, e guardei dentro do peito a Semana em meu coração. São Paulo, cidade grande, de cultura e tradição, tu foste palco de um sonho, de coragem e criação. E eu, filho de outro sertão, vim teu passado visitar... Nas escadarias do Municipal, vi a poesia acordar!
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 02/10/2026
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