

O SERTANEJO NAS ESCADARIAS DO MUNICIPAL
Cordel da Semana de Arte Moderna de 1922
Saí cedo do Trianon, com saudade no coração, fui andando pela Paulista, feito quem busca inspiração. E São Paulo me chamava com sua voz de inspiração. Cheguei ao Municipal, parei para contemplar, vi as escadas imponentes e comecei a imaginar: “Quantas histórias essa casa tem guardadas pra contar?” De repente, veio um vento feito assombração de luar, e o passado abriu a porta sem ninguém mandar entrar. Quando olhei para as escadas, vi a história caminhar. Mário de Andrade chegou com seus versos na mão, Oswald veio logo atrás, cheio de provocação. E eu disse: “Meus bons poetas, que bonita reunião!” Anita Malfatti chegou com seus quadros de emoção, trazendo cores e formas que causaram discussão. Sua arte abriu caminhos para uma nova geração. Menotti Del Picchia veio com seu jeito de falar, Graça Aranha estava junto, pronto para discursar. E a velha arte, assustada, não sabia onde ficar. Di Cavalcanti desenhava um Brasil cheio de cor, com seu traço modernista, com seu povo e seu calor. Parecia que a pintura tinha ganhado outro sabor. Villa-Lobos afinava sua música genial, misturando sons do povo com concerto musical. E o Brasil entrava em cena no palco do Municipal. Guiomar Novaes tocava com talento e precisão, e cada nota que surgia tocava meu coração. A música também dizia: “Brasil, busca tua expressão!” Victor Brecheret, escultor, trazia força na mão, transformava pedra em sonho, dando forma à criação. Até a pedra parecia ter pulsado de emoção. Ronald de Carvalho chegou com poesia para ler, Guilherme de Almeida trouxe seus versos para oferecer. E eu, simples sertanejo, só queria compreender. Perguntei: “Meus companheiros, que revolução é essa?” Mário então me respondeu: “É mudança, meu parceiro! Queremos uma arte nossa, brasileira por inteiro!” Oswald deu uma risada e falou sem hesitação: “Chega de copiar a Europa, vamos ter nossa expressão!” E eu bati palma dizendo: “Agora gostei da lição!” Anita olhou para mim com seus olhos de pintora: “Não tenha medo do novo, nem da crítica destruidora. Toda arte que é verdadeira nasce de dentro e se aflora.” Eu lembrei do meu Nordeste, do meu sertão tão querido, da infância em Assaré, do tempo que já foi vivido. E pensei: “Também existe arte no chão onde nasci!” Vi que o verso nordestino, com sua rima e seu cordão, também é arte brasileira, também é manifestação. Patativa lá do Crato cabe nessa criação! E naquele instante eu vi uma ponte se levantar: do sertão para São Paulo, da viola ao cantar, do repente ao modernismo, todo Brasil a se encontrar. Procurei por Tarsila, queria vê-la chegar, mas alguém falou baixinho: “Ela ainda está além-mar.” Estava em Paris naquele tempo, mas depois veio brilhar. Mais tarde Tarsila entraria na história da criação, com suas cores brasileiras e sua grande inspiração. E seu nome se tornaria símbolo dessa geração. Então olhei para as escadas do velho Municipal, e senti que aquele encontro era algo especial. Eu estava conversando com a história do Brasil. Quando o vento foi embora, tudo começou a sumir. Os poetas foram partindo, cada qual tomou seu seguir. Fiquei sozinho nas escadas, sem vontade de sair. Mário virou uma lembrança, Oswald virou inspiração, Anita virou pintura, Villa-Lobos, uma canção. E eu levei todos comigo dentro do meu coração. Saí dali devagarinho, com vontade de escrever. Quem conversa com a história tem histórias pra viver. E quem guarda sua memória nunca deixa de aprender. São Paulo, minha querida, Paulista do coração, tu me deste outra viagem sem precisar de estação. Do Trianon ao Municipal, fiz do tempo uma canção. Sou sertanejo e sou paulista, duas raízes num só chão; meu Nordeste mora em mim, Sampa mora no coração. E entre o verso e a saudade, faço a minha criação. Se perguntarem por mim, digam onde fui parar: fui buscar meus velhos mestres nas escadas do Municipal
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 02/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|