

PELAS COZINHAS DO MEU BRASIL
Segunda Jornada — Sabores, Festas, Costumes e Tradições
Peguei de novo a estrada, Com meu bornal companheiro, Minha viola afinada, Meu verso bom de violeiro. Se a primeira foi bonita, Nesta eu vou mais ligeiro, Pois ainda há muito Brasil Escondido no terreiro! Vou voltar lá para o Norte, Onde a mata tem segredo, Onde o rio vira estrada E a canoa vence o medo. Lá o povo sabe a receita Que não se aprende cedo: É saber viver com a mata E respeitar seu segredo. No Amazonas tem pirarucu, Tem jaraqui na brasa, Tem banana cozinhada E farinha em toda casa. Tem tucumã com pão quente, Tem cheiro bom pela praça, E o povo diz “maninho” Quando a amizade abraça. Tem café passado na hora, Tem bolo de macaxeira, Tem castanha e cupuaçu Na mesa da cozinheira. E quando chega o boi-bumbá, A cidade inteira se enfeita: É vermelho, é azul, É cantoria na noite inteira! No Pará tem açaí grosso, Que acompanha o peixe frito, Tem farinha d’água crocante, Tem sabor forte e bonito. Tem cheiro-verde, camarão, Tem tempero esquisito Para quem vem de longe, Mas para o paraense é bendito! Tem carimbó no terreiro, Tem saia rodando ao chão, Tem curimbó, tem maraca, Tem dança e celebração. E quando o povo se junta, Não existe solidão: O Pará cozinha a vida Na panela da tradição. No Amapá tem gengibirra, Tem camarão regional, Tem peixe assado na brasa E costume ancestral. Tem Marabaixo cantando Com batuque magistral, E a tradição quilombola É patrimônio cultural. No Acre a mesa revela Sabores da floresta inteira, Tem castanha, tem mandioca, Tem banana na panela. Tem peixe de rio assado E farinha na peneira, E o povo guarda histórias Da floresta brasileira. Rondônia traz para a mesa Peixe fresco do Madeira, Tem farinha, tem banana, Tem comida verdadeira. Tem festa de boi-bumbá, Tem cultura na fronteira, E o fogão vira encontro Da família brasileira. Roraima tem seus sabores Da mistura regional, Com influência indígena E costume internacional. Tem caxiri em celebração, Tem peixe do rio local, E a cultura Macuxi Mantém viva sua ancestral. Tocantins chega sorrindo Com arroz e chambari, Com peixe do Araguaia E vontade de servir. Tem festa do Divino Com promessa e porvir, E o povo quando recebe Diz: “Chegue mais, pode vir!” Agora eu volto ao Nordeste, Minha terra de emoção, Onde a feira tem de tudo, Do tempero ao artesão. Onde o cheiro da comida Já desperta o coração Antes mesmo de enxergar O que existe no caldeirão. No Maranhão tem juçara, Tem torta de camarão, Tem peixe seco, tem farinha, Tem arroz na tradição. Tem tambor de crioula Batendo forte no chão, E o povo dança e canta Com orgulho da nação. Tem bumba meu boi famoso, Tem matraca e zabumba, Tem sotaque diferente Quando a multidão se ajunta. E São João maranhense Quando chega não pergunta: Entra pela porta da frente E a alegria logo desponta! No Piauí tem Maria-Isabel, Tem paçoca bem socada, Tem carne seca no prato E farinha bem torrada. Tem cajuína cristalina, Tem doce na madrugada, E a Serra da Capivara Guarda história preservada. Tem reisado e tem quadrilha, Tem festa pelo sertão, Tem vaquejada e repente, Tem cantiga e procissão. E o piauiense recebe Com respeito e coração: “Entre, meu amigo, sente, Que aqui tem mais um lugar!” No Ceará tem aluá, Tem bolo de milho assado, Tem mungunzá na panela, Tem doce bem preparado. Tem canjica, tem pamonha, Tem milho bem temperado, E São João vira fogueira No terreiro iluminado. Tem reisado, tem maneiro-pau, Tem banda cabaçal, Tem quadrilha e vaquejada, Tem repente popular. Tem embolada ligeirinha Que ninguém consegue parar, E o poeta pega o verso E começa a pelejar! “Oxente!”, grita o baiano, “Vixe!”, responde o sertão, “Eita!”, pula o pernambucano, “Arretado!”, diz o irmão. “Visse?” pergunta o cearense, Com sorriso e animação. Cada fala deste Brasil Tem seu próprio coração! Na Paraíba tem buchada, Tem carne de bode assada, Tem cuscuz de milho quente, Tem feira movimentada. Tem repente, tem embolada, Tem viola afinada, E no São João de Campina A sanfona fica acordada! Pernambuco tem tapioca, Tem bolo Souza Leão, Tem cartola de banana Com queijo e açúcar no chão. Tem sarapatel na mesa, Tem cultura e tradição. E no frevo a sombrinha Vira flor na multidão! Tem maracatu de baque virado, Tem caboclo de lança, Tem ciranda lá na praia, Tem coco que nunca cansa. Tem “oxente!” no meio da roda E alegria que balança: Pernambuco quando dança Faz o chão perder a esperança de ficar parado! Alagoas tem cocada, Tem bolo de goma também, Tem sururu no molhinho Que perfuma muito bem. Tem artesanato de renda Que a mão delicada tem, E o São João alagoano Faz a noite ir além. Sergipe tem amendoim, Tem milho assado na brasa, Tem caranguejo e tapioca Na mesa de toda casa. Tem reisado, tem quadrilha, Tem cultura que não atrasa, E o forró sergipano Faz alegria na praça! Na Bahia tem cocada, Tem bolinho de estudante, Tem arroz de hauçá Com sabor marcante. Tem xinxim de galinha, Tem tempero penetrante, E o dendê quando aparece Deixa o prato triunfante! Tem lavagem do Bonfim, Tem Festa de Iemanjá, Tem samba de roda antigo, Tem capoeira a gingar. Tem Filhos de Gandhy na rua, Tem bloco a desfilar, E a Bahia transforma festa Em jeito de celebrar. Agora o Centro-Oeste Vai abrir seu coração, Onde o cerrado oferece Fruto, peixe e tradição. Tem pequi, cagaita, baru, Tem guariroba no fogão, E o cheiro da comida Se espalha pelo sertão. Em Goiás tem empadinha, Tem doce de leite e queijo, Tem pamonha de milho verde Que eu provo sem ter desejo. Tem biscoito de polvilho E café servido sem medo: “Come mais um, meu amigo!” É assim que eu vejo Goiás! Tem Cavalhadas de Pirenópolis, Tem Folia de Reis, Tem congada e catira, Tem tradição de uma vez. Tem viola, sapateado, Tem costume que não se desfez, E o povo guarda no peito O que aprendeu com seus reis. Mato Grosso tem guaraná, Tem peixe no fogareiro, Tem banana da terra frita E arroz bem companheiro. Tem paçoca de pilão, Tem sabor pantaneiro, E o pantaneiro conhece Cada canto do ribeiro. Tem cururu e siriri, Tem viola de cocho, Tem festa de São Benedito E povo de olho no olho. Tem dança que atravessa o tempo Sem precisar de luxo ou ouro: A cultura mato-grossense Vale mais que qualquer tesouro! No Mato Grosso do Sul Tem sopa paraguaia, Tem chipa, tem tereré Quando o calor se espalha. Tem sobá na madrugada, Tem fronteira que trabalha, E a mistura dos povos Na cozinha nunca falha. Tem Festa do Sobá, Tem chamamé pra dançar, Tem influência guarani Que não deixa se apagar. Tem tereré compartilhado Quando a roda vai sentar, Pois chimarrão e tereré Também são jeito de abraçar. No Distrito Federal Tem Brasil de todo lado: Nordestino, sulista, nortista, Tem sotaque misturado. Tem feira da Torre vendendo O sabor de todo estado, E Brasília vira palco Do Brasil representado. Chego agora ao Sudeste, Onde a panela é mistura, Pois cada estrada trouxe Um pedaço de cultura. Minas tem quitanda antiga, Tem fogão de lenha e ternura, Tem doce de figo e goiaba Guardado em compoteira pura. Tem broa de fubá quentinha, Tem biscoito de polvilho, Tem queijo curado na tábua Que combina com café forte. Tem frango com quiabo E angu feito com brilho, E a cozinha mineira Tem conversa como trilho. Tem Congado, tem Folia, Tem Cavalhada e procissão, Tem viola e catira Animando o interiorzão. Minas guarda suas festas Com fé e celebração, E o mineiro abre a porteira Para receber o irmão. No Espírito Santo tem Torta capixaba na mesa, Feita na Semana Santa Com sabor e delicadeza. Tem muma de siri, tem peixe, Tem moqueca com certeza, E panela de barro É tradição e riqueza. Tem Ticumbi no norte, Tem Congo em sua dança, Tem bandas de congo Carregando a esperança. E quando a casaca toca Ninguém fica na distância: O Espírito Santo inteiro Entra na roda e balança! No Rio de Janeiro tem Angu à baiana no prato, Tem bolinho de bacalhau, Tem torresmo no barato. Tem botequim, tem petisco, Tem samba no sapato, E o carioca diz “beleza!” E segue firme no compasso. Tem Folia de Reis na roça, Tem jongo e tem partido-alto, Tem roda de samba antiga Subindo morro e sobrado. Tem festa de São Jorge Com povo lado a lado, E o Rio transforma cultura Em abraço compartilhado. São Paulo é grande mistura, É panela universal, Tem virado à paulista, Tem cuscuz caipira no quintal. Tem pastel de feira quente, Tem comida oriental, E o Mercadão representa Esse encontro cultural. Tem Festa de Nossa Senhora, Tem congada no interior, Tem fandango caiçara Com viola e cantador. Tem cultura caipira antiga Que resiste com valor, E o paulista traz no peito A memória do interior. No Paraná tem barreado, Tem quirera e pinhão, Tem pierogi dos imigrantes Misturado à tradição. Tem carne de onça no prato, Tem polenta e chimarrão, E a cozinha paranaense É retrato da imigração. Tem fandango caiçara Batendo forte no chão, Tem festa do pinhão Quando chega o friozão. Tem tropeiro pela estrada E memória no coração, Pois o Paraná é encontro De cultura e tradição. Santa Catarina tem cuca, Tem marreco e tem pirão, Tem sequência de camarão Servida com satisfação. Tem pinhão na panela Quando chega o inverno, então, E o litoral catarinense Tem sabor de celebração. Tem Boi de Mamão na praça, Tem Oktoberfest também, Tem dança, música e chope, Tem alegria que vem. Tem cultura açoriana Que permanece muito bem, E o povo guarda a história Que seus antepassados têm. No Rio Grande do Sul Tem arroz de carreteiro, Tem charque, tem pinhão, Tem churrasco no braseiro. Tem cuca e galeto assado, Tem costume de tropeiro, E o gaúcho compartilha Seu mate com o companheiro. Tem Semana Farroupilha, Tem rodeio e tradição, Tem vaneira, chamamé, Tem música e chimarrão. Tem bombacha, tem lenço, Tem orgulho da região, E a cultura se renova Sem perder sua tradição. E assim termino a viagem Sem querer dizer “adeus”, Pois o Brasil é tão grande Que ainda cabem versos meus. Tem receita em cada esquina, Tem costume entre os seus, Tem histórias que atravessam Os caminhos que Deus deu. Tem festa de santo e de rua, Tem terreiro e procissão, Tem feira, fogão de lenha, Tem panela e mutirão. Tem gente que abre a sua casa Para oferecer o pão, Pois comida neste Brasil Também é forma de união. Do tacacá ao barreado, Do pequi ao camarão, Da pamonha de Goiás Ao churrasco do rincão, Da tapioca nordestina Ao pão de queijo mineirão, Cada prato traz consigo Um pedaço da nação! E se alguém disser um dia Que o Brasil é só lugar, Diga que está enganado, Pois aqui se aprende a amar: Cada povo tem seu jeito, Cada terra seu cantar, Cada mesa tem memória, Cada festa seu dançar. Eu viajei pelo Brasil Sem precisar de avião, Fui levado pela rima, Pelo cheiro e pelo chão. Meu passaporte foi o verso, Minha estrada, a tradição, E meu destino final Foi o próprio coração! Viva o Norte e viva o Sul, Viva o Centro-Oeste inteiro, Viva o nosso Nordeste, Viva o povo brasileiro! Viva a mesa compartilhada, Viva o prato companheiro, Porque um país que cozinha Tem memória o tempo inteiro! E termino com respeito, Com carinho e gratidão: Brasil não cabe num prato, Nem cabe numa canção. Mas quando a gente se senta E reparte o mesmo pão, O Brasil cabe inteirinho Dentro do nosso coração!
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 29/09/2026
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