

A MEMÓRIA CURTA DO BRASIL
Uma crônica sem anestesia
Existe uma doença que costuma atacar o eleitor brasileiro de tempos em tempos. Ela se chama amnésia eleitoral. O político pode passar quatro anos protagonizando crises, declarações controversas, disputas institucionais e episódios que ocupam páginas dos jornais. Aí chega uma nova eleição... E alguém pergunta: — Mas isso aconteceu mesmo? Aconteceu. E lembrar não é perseguir ninguém. Memória não é perseguição. É cidadania. Durante o governo Bolsonaro, o Brasil viveu uma sequência de episódios que ainda fazem parte da história recente do país. Weintraub. Ricardo Salles. Damares. Paulo Guedes. Ernesto Araújo. Roberto Alvim. Milton Ribeiro. Onyx Lorenzoni. Não precisamos nem exagerar. Os próprios acontecimentos registrados publicamente já são suficientes para lembrar aquele período. Houve a famosa reunião ministerial em que Ricardo Salles defendeu aproveitar a atenção da imprensa concentrada na pandemia para “passar a boiada”. Houve Roberto Alvim utilizando uma estética associada à propaganda nazista em um pronunciamento oficial. Houve Sérgio Moro deixando o Ministério da Justiça e acusando Jair Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal. Houve crises diplomáticas, conflitos institucionais e uma sucessão de episódios que mantiveram o país permanentemente em estado de tensão política. E agora vem a eleição. E aparece novamente o sobrenome Bolsonaro. Então a pergunta não deveria ser apenas: “Quem é o candidato?” Também deveria ser: “Que história vem junto com ele?” Porque candidato nenhum nasce no dia em que começa a campanha. Ele carrega consigo sua trajetória, suas alianças, seus discursos, suas relações políticas e tudo aquilo que já fez ou defendeu. E então apareceu o Banco Master Aqui precisamos ter cuidado. Porque uma investigação não é uma condenação. Mas investigação também não é coisa para ser escondida debaixo do tapete. No caso envolvendo o Banco Master e o filme Dark Horse, Flávio Bolsonaro confirmou que procurou Daniel Vorcaro para buscar recursos para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro. Mensagens divulgadas registraram uma negociação de valores que chegou a R$ 134 milhões, segundo reportagens baseadas nos documentos do caso. A Polícia Federal investiga possíveis irregularidades relacionadas ao episódio. Pronto. É isso. Não precisamos inventar uma sentença onde ainda existe investigação. Não precisamos absolver antes da hora. É preciso investigar. E é justamente por isso que surgem perguntas. Como foi feita a negociação? Qual foi a origem dos recursos? Quanto foi efetivamente recebido? Quem participou das operações? Os contratos estavam regulares? Houve alguma irregularidade? Se não houve, que os documentos esclareçam. Se houve, que as instituições apurem. Isso é democracia. O problema é quando tudo vira torcida Na política brasileira existe uma curiosa regra não escrita: Quando o problema é com o adversário, investigação vira escândalo. Quando é com o aliado, investigação vira perseguição. Quando o adversário é investigado, alguns já decretam a culpa. Quando o aliado é investigado, alguns já decretam sua inocência. E assim a verdade fica espremida entre duas torcidas organizadas. Mas existe uma coisa chamada fato. Existe outra chamada investigação. Existe outra chamada defesa. E existe uma última chamada decisão judicial. Cada uma tem seu lugar. Confundir tudo isso é uma excelente maneira de transformar política em campeonato de futebol. E o Brasil não precisa de mais torcida. Precisa de memória. A memória seletiva O eleitor não precisa odiar ninguém para lembrar. Não precisa gostar de ninguém para questionar. Não precisa pertencer a partido algum para exigir explicações. Pode simplesmente perguntar: “O que aconteceu?” Essa é uma das perguntas mais poderosas de uma democracia. O cidadão tem direito de fazê-la.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 29/09/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|