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QUANDO A ESCOLA VIRA QUARTEL, QUEM PROTEGE A INFÂNCIA?
Uma reflexão de quem já foi criança e hoje olha para a infância com 78 anos de vida

Eu já fui criança.

E talvez seja justamente por isso que determinadas imagens mexam tanto comigo.

Quando vejo uma criança de aproximadamente dez anos vestida com uma farda que, pela aparência e pelo simbolismo que transmite, me faz lembrar imagens de organizações militares de regimes autoritários do passado, sinto um profundo desconforto.

Não estou dizendo que aquela criança tenha qualquer relação com o nazismo.

Não estou afirmando que o programa seja nazista.

Não estou atribuindo aos profissionais envolvidos intenções que não posso provar.

Estou falando de uma coisa mais simples e, ao mesmo tempo, muito séria:

a imagem.

A imagem de uma criança.

Uma criança que deveria estar carregando sua mochila, seus livros, seus lápis, seus sonhos e talvez até uma bola debaixo do braço.

Eu já fui criança.

Hoje tenho 78 anos.

Carrego nas costas quase oito décadas de histórias, alegrias, dificuldades, perdas, esperanças e aprendizados. Sei que a infância passa depressa. Sei também que aquilo que colocamos na cabeça de uma criança pode influenciar a maneira como ela enxergará o mundo.

Por isso pergunto:

precisamos mesmo aproximar a infância de símbolos e comportamentos associados à lógica militar?

Disciplina?

Sim.

Respeito?

Sim.

Responsabilidade?

Com certeza.

Pontualidade?

Também.

Mas existe uma diferença enorme entre ensinar disciplina e transformar a disciplina em uma forma de obediência automática.

A escola deve ensinar a criança a respeitar regras, mas também precisa ensiná-la a compreender por que essas regras existem.

Deve ensinar respeito à autoridade, mas também deve ensinar que autoridade não está acima da razão.

Deve ensinar responsabilidade, mas não pode abandonar a criatividade.

Deve ensinar organização, mas não pode sufocar a imaginação.

Porque uma criança não é um soldado em miniatura.

Criança é criança.

E criança precisa brincar.

Precisa perguntar.

Precisa imaginar.

Precisa correr.

Precisa errar.

Precisa descobrir.

Precisa aprender a conviver com aquilo que é diferente.

As próprias diretrizes da educação infantil colocam as interações e a brincadeira no centro das práticas pedagógicas.

Isso não significa ausência de limites.

Significa reconhecer que educar uma criança é muito mais complexo do que fazê-la obedecer.

E aqui está o meu ponto de vista:

eu não quero uma infância preparada para obedecer cegamente. Quero uma infância preparada para pensar.

Quero que uma criança aprenda a respeitar seu professor, mas tenha coragem de levantar a mão e perguntar:

— Professor, por quê?

Quero que aprenda a respeitar regras, mas também saiba perguntar:

— Essa regra é justa?

Quero que aprenda responsabilidade, mas continue tendo liberdade para sonhar.

Porque amanhã essa criança será adulta.

Será professora.

Médica.

Engenheira.

Trabalhadora.

Artista.

Mãe.

Pai.

Cidadã.

E viverá numa sociedade que precisará de pessoas capazes de dialogar, discordar, argumentar e respeitar opiniões diferentes.

Democracia não se constrói apenas com obediência. Constrói-se também com consciência.

É por isso que aquela imagem me incomoda.

Não porque eu queira atacar a criança.

Muito pelo contrário.

É justamente porque quero proteger o direito de ela ser criança.

Não quero colocar sobre os ombros de uma criança o peso simbólico das guerras, dos autoritarismos e dos conflitos que pertencem ao mundo dos adultos.

Ela já tem uma missão suficientemente grande:

crescer.

Aprender.

Brincar.

Descobrir quem é.

Construir seus sonhos.

E, quando crescer, escolher livremente que caminho deseja seguir.

Eu já fui criança.

Hoje tenho 78 anos.

E depois de caminhar por tantas décadas, aprendi uma coisa que nenhuma farda consegue ensinar:

a infância passa depressa demais para ser transformada em desfile.

Uma escola pode ter disciplina sem transformar a criança em soldado.

Pode ter autoridade sem autoritarismo.

Pode ter regras sem medo.

Pode ensinar respeito sem exigir submissão.

Pode formar cidadãos responsáveis sem apagar a individualidade.

É disso que estamos falando.

Não sou contra a disciplina.

Sou contra confundir disciplina com adestramento.

Não sou contra o respeito.

Sou contra transformar obediência em virtude absoluta.

Não sou contra a organização.

Sou contra permitir que a forma seja mais importante que a formação.

Porque educação não é fabricar pessoas iguais.

Educação é ajudar cada criança a descobrir sua própria capacidade de pensar e transformar o mundo.

E talvez essa seja a pergunta que nós, adultos, precisamos fazer antes de colocar uma farda sobre uma criança:

estamos formando cidadãos conscientes ou apenas ensinando crianças a marchar?

Eu já fui criança.

Hoje, aos 78 anos, olho para trás e sei que a infância não volta.

Por isso, quando olho para uma criança, não vejo um pequeno soldado.

Vejo um ser humano em construção.

E esse ser humano merece livros.

Merece professores.

Merece conhecimento.

Merece respeito.

Merece liberdade para pensar.

E, acima de tudo,

merece continuar sendo criança.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 26/09/2026
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