

A CONSTITUIÇÃO NÃO É ENFEITE
Há momentos em que é preciso abrir a Constituição Federal.
Não para fazer discurso bonito. Não para impressionar ninguém. Apenas para lembrar que, antes de qualquer partido, ideologia ou candidato, existe uma coisa chamada Estado Democrático de Direito. O artigo 1º da nossa Constituição começa estabelecendo fundamentos que deveriam ser conhecidos por todos nós: soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e pluralismo político. Não é difícil entender. A democracia brasileira não foi construída para pertencer a um grupo político. Ela pertence ao povo. Por isso, qualquer tentativa de ruptura institucional precisa ser investigada com seriedade, independentemente de quem esteja envolvido. E aqui existe uma diferença fundamental: criticar um político é legítimo; condená-lo antecipadamente não é. A Justiça deve trabalhar com provas, documentos, testemunhos e o devido processo legal. Da mesma forma, defender uma determinada corrente política também é legítimo. O pluralismo político existe justamente para que diferentes ideias possam disputar os caminhos do país. O problema começa quando a disputa política transforma o adversário em inimigo que precisa ser eliminado. Foi assim que nossa democracia conheceu alguns dos seus períodos mais sombrios. E foi também por isso que a Constituição de 1988 colocou a dignidade humana e o pluralismo político entre os fundamentos da República. Durante a pandemia de Covid-19, o Brasil viveu uma das maiores tragédias sanitárias de sua história. Centenas de milhares de brasileiros morreram. Houve erros, omissões, conflitos entre autoridades e decisões públicas que continuam sendo objeto de investigação e debate. A dor dessas famílias não pode virar apenas munição eleitoral. Quem perdeu pai, mãe, filho, irmão ou amigo não quer saber de torcida organizada. Quer respostas. Quer responsabilidade. Quer saber o que poderia ter sido feito e não foi. Quer que o país aprenda com seus próprios erros. E talvez essa seja a maior lição de todas: direitos humanos não podem existir somente quando favorecem o nosso lado. Se acreditamos que toda pessoa tem dignidade, precisamos defender essa dignidade mesmo quando discordamos profundamente dela. Se acreditamos na democracia, precisamos defendê-la inclusive quando o resultado das urnas não nos agrada. Se acreditamos na Constituição, precisamos respeitá-la quando ela protege o adversário e quando protege aqueles que pensamos estar do nosso lado. A democracia não é um clube particular. Não pertence à esquerda. Não pertence à direita. Não pertence a Bolsonaro, Lula, FHC, Collor ou qualquer outro político. Pertence ao povo brasileiro. Por isso, quando surgirem acusações de tentativa de golpe, ataques às instituições ou qualquer outro crime contra a democracia, que sejam investigadas. Se houver provas, que a Justiça decida. Se houver condenação, que a pena seja cumprida. E se não houver provas suficientes, que ninguém seja condenado pela multidão. Porque a Constituição não foi escrita para proteger apenas os nossos amigos. Ela existe justamente para estabelecer regras quando estamos diante daqueles de quem discordamos. A Constituição não é enfeite. É o nosso pacto democrático. E talvez seja justamente nos momentos de maior divisão que precisamos voltar à primeira página e lembrar disso.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 24/09/2026
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