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QUANDO A JUSTIÇA VIRA TABELA DE PREÇOS
Imagine descobrir que alguém escreveu uma tabela de preços para espionar autoridades brasileiras.

Pessoa comum: tanto.

Deputado: tanto.

Senador: tanto.

Ministro do Judiciário: R$ 250 mil.

Parece roteiro de filme policial.

Mas essa tabela apareceu, segundo a investigação da Polícia Federal, durante as apurações que começaram depois do assassinato do advogado Roberto Zampieri, morto a tiros em Cuiabá, em dezembro de 2023.

E foi justamente a análise do celular de Zampieri que levou os investigadores a outras suspeitas, entre elas possíveis negociações envolvendo decisões judiciais.

A partir daí, a investigação chegou ao chamado Comando C4, grupo que, segundo a PF, reunia civis e militares da ativa e da reserva e que teria oferecido serviços de espionagem e homicídios sob encomenda.

A tabela encontrada pelos investigadores é de arrepiar.

Não estamos falando apenas de dinheiro.

Estamos falando de uma lógica em que pessoas podem ser transformadas em mercadoria e autoridades, em alvos comerciais.

R$ 100 mil para um deputado.

R$ 150 mil para um senador.

R$ 250 mil para um ministro do Judiciário.

E a pergunta que fica é simples:

Quem contrataria um serviço desses?

Essa é uma das questões que a investigação precisa responder.

Também foram encontradas anotações com nomes de ministros do Supremo Tribunal Federal, entre eles Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin. A existência dos nomes, entretanto, não prova que tenham sido espionados. Isso também precisa ser esclarecido pela investigação.

E aqui está o ponto fundamental:

Não podemos transformar investigação em condenação antecipada.

Mas também não podemos tratar uma investigação dessa dimensão como se fosse uma ocorrência policial qualquer.

Quando aparecem suspeitas de espionagem de autoridades, assassinato sob encomenda e possível venda de decisões judiciais, o assunto ultrapassa interesses particulares.

Ele atinge a própria confiança da sociedade nas instituições.

A Justiça precisa ser independente.

As decisões judiciais precisam ser tomadas conforme a lei e as provas — não conforme o tamanho da carteira de quem está interessado no resultado.

E qualquer pessoa envolvida, seja civil, militar, empresário, advogado ou autoridade pública, precisa responder perante a lei se houver provas de crime.

Nem farda protege criminoso.
Nem dinheiro compra a lei.
Nem cargo público coloca alguém acima da Justiça.

O Brasil precisa saber até onde esse esquema chegou.

Quem participou?

Quem contratou?

Quem foi espionado?

Quem se beneficiou?

Houve tentativa de assassinato de outras autoridades?

Houve relação entre a espionagem e a venda de decisões judiciais?

São perguntas sérias.

E perguntas sérias precisam de respostas igualmente sérias.

Sem espetáculo.

Sem condenação antecipada.

Sem proteção para ninguém.

Porque, quando a Justiça vira uma tabela de preços, a democracia inteira paga a conta.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 24/09/2026
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