

SAMPA, MINHA MÃE ADOTIVA
Hoje acordei bem cedo.
Olhei pela janela e contemplei a grandeza do Parque Trianon, aquele pedaço de infinita beleza encravado no coração da Avenida Paulista. A garoa caía mansamente sobre as árvores do parque e molhava também as vidraças do MASP. Era aquela fina garoa paulistana, quase uma carícia do céu sobre a cidade. Ali estava o Parque Trianon, um remanescente de Mata Atlântica resistindo bravamente em plena Avenida Paulista. E eu fiquei olhando... São Paulo, essa senhorinha desvairada, celebrando seus 472 anos, continuava ali, viva, pulsante, acolhendo seus filhos e regando seus sonhos com a velha e querida garoa. Foi essa garoa que, um dia, também regou o meu coração. Foi nesta terra que construí meus sonhos. Foi aqui que fui acolhido. Sou cearense de nascimento, mas paulistano de coração. Sou um de seus filhos adotivos. Tu és, para mim, uma verdadeira mãe. Oh, minha Sampa querida! Hoje presto minha homenagem a ti, cidade que me acolheu, que me abraçou e que, de alguma maneira, fez de mim um filho teu. São Paulo é uma metrópole de concreto, mas também é uma cidade de poetas e poetisas. Gente que, através das palavras, das artes e da cultura, desenhou e continua desenhando a magia da vida em teu seio. Por tuas ruas passaram grandes nomes. Patrícia Galvão, a eterna Pagu, musa do modernismo, mulher de personalidade marcante e de permanente busca pela liberdade. Mário de Andrade, com sua Pauliceia Desvairada. Oswald de Andrade, um dos nomes fundamentais do modernismo brasileiro e do movimento Pau-Brasil. Tarsila do Amaral, cuja arte ajudou a transformar o olhar do Brasil sobre si mesmo, deixando para a história a força de obras como Abaporu. Menotti Del Picchia, poeta de Juca Mulato. E também Carolina Maria de Jesus, mulher negra, escritora extraordinária, moradora da favela do Canindé e autora de Quarto de Despejo, que transformou sua própria experiência em literatura e testemunho social. E São Paulo também guarda a memória de grandes homens negros que ajudaram a construir sua história. Luiz Gama, baiano de nascimento e paulistano de coração, advogado, jornalista, escritor e um dos grandes nomes da luta abolicionista. Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas, mestre construtor negro cuja trajetória atravessou a história da arquitetura paulistana. José Correia Leite, jornalista e uma das vozes importantes da imprensa negra de São Paulo. Lino Guedes, poeta e jornalista. Oswaldo de Camargo, escritor e referência da literatura afro-brasileira. Jaime de Aguiar, ligado à Frente Negra Brasileira. E tantos outros homens e mulheres que fizeram da cultura paulistana um imenso mosaico de vozes. Também lembro de Cuti, Luiz Silva, grande nome da literatura afro-brasileira, e de Sérgio Vaz, poeta e criador da Cooperifa, levando a poesia para além dos espaços tradicionais e transformando o sarau em instrumento de encontro, expressão e cidadania. É assim que eu vejo minha São Paulo. Uma cidade que pode ser dura, apressada e gigantesca, mas que também sabe acolher. Uma cidade onde o concreto encontra a floresta. Onde a garoa encontra a poesia. Onde o migrante encontra seu lugar. Onde um menino que nasceu no sertão do Ceará pôde chegar, sonhar e construir sua própria história. Hoje, quando olho pela janela e vejo a garoa molhando o Trianon, sinto que ela também molha minhas lembranças. E penso: existem cidades onde a gente nasce... e existem cidades que nascem dentro da gente. São Paulo nasceu dentro de mim. E eu, cearense de nascimento, sou paulistano de coração. Minha querida Sampa, receba esta singela homenagem de um dos teus filhos adotivos. Continue desvairada. Continue acolhendo poetas, poetisas, artistas, trabalhadores, sonhadores e todos aqueles que chegam trazendo apenas uma mala cheia de esperança. Porque, enquanto houver garoa caindo sobre o Trianon, poesia ecoando pelas ruas e sonhos sendo construídos nesta imensa metrópole, a Pauliceia continuará desvairada.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 21/09/2026
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