Sol Flamejante do Sertão

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MACEIÓ — ONDE MEUS ANCESTRAIS DESEMBARCARAM

Hoje, passando por Maceió, a Jamaica Brasileira, senti algo diferente.

Nesta manhã, caminhando pela praia, tive a sensação de que meus avós caminhavam comigo.

Talvez fosse a força da memória, talvez fosse a saudade de quem já não está aqui. Mas, por alguns instantes, senti a presença deles ao meu lado.

Comecei pela Pajuçara, com suas águas azul-turquesa, tão bonitas que parecem pintadas à mão pela própria natureza.

Depois, cheguei à Ponta Verde, com suas águas verde-esmeralda e seus exuberantes coqueirais, formando um cenário de infinita beleza.

À tarde, as copas dos coqueiros parecem ganhar novas cores. E a fauna costeira transforma a paisagem em um verdadeiro espetáculo: garças, gaivotões, trinta-réis, batuíras, maçaricos e tantas outras aves que fazem da orla um palco vivo da natureza.

Fiquei ali observando aquele espetáculo até o pôr do sol.

E é difícil dizer o que é mais bonito: o sol desaparecendo lentamente no horizonte ou a chegada da noite, quando uma lua exuberante surge no céu, acompanhada por milhares de estrelas.

Assim são as noites de Maceió.

Mas, para mim, existe algo ainda mais profundo em tudo isso.

Foi por estas terras que meus ancestrais chegaram ao Brasil.

Só que eles não tiveram o privilégio de contemplar as águas azuis de Pajuçara, os coqueirais de Ponta Verde, as aves da costa ou o maravilhoso pôr do sol alagoano.

Eles chegaram trazendo consigo apenas a esperança de sobreviver.

Depois do desembarque, foram levados para Penedo, às margens do majestoso Rio São Francisco, onde foram submetidos ao trabalho nas plantações de cana-de-açúcar.

Enquanto hoje eu caminho livremente por essas praias, eles caminharam por esta terra carregando o peso da escravidão.

Por isso, quando meus pés tocam a areia de Maceió, sinto que não estou caminhando sozinho.

Caminho também com a memória daqueles que vieram antes de mim.

E Alagoas não é somente terra de praias maravilhosas.

É também terra de mentes brilhantes e personagens que marcaram a história do Brasil.

Terra de Graciliano Ramos, genial escritor de Quebrangulo.

Terra de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, figuras fundamentais da história republicana.

Terra de Zumbi dos Palmares e Dandara, símbolos da resistência negra e da luta contra a escravidão.

Terra de Tavares Bastos, de Aurélio Buarque de Holanda, responsável por um dos mais importantes dicionários da língua portuguesa, e do poeta Lêdo Ivo.

Terra da ciência e da medicina com a genial Nise da Silveira.

Terra também do futebol, com Mário Jorge Lobo Zagallo, o Velho Lobo, campeão mundial em diferentes funções e personagem único da história da Seleção Brasileira.

E, para fechar esta homenagem com chave de ouro, lembro Dom Avelar Brandão Vilela e seu irmão, o menestrel Teotônio Vilela, símbolo da luta pela democracia e uma das vozes marcantes das Diretas Já.

Essa é Alagoas.

Terra de praias, coqueiros, rios, estrelas e luar.

Terra de poetas, escritores, cientistas, atletas, religiosos e homens e mulheres que ajudaram a construir a história brasileira.

Mas, para mim, Maceió é ainda mais.

É o lugar onde a paisagem encontrou minha memória.

É onde o azul do mar encontrou o passado dos meus ancestrais.

E nesta manhã, caminhando pela praia, entre o som das ondas, o voo das aves e a beleza do céu alagoano, tive uma certeza:

meus ancestrais chegaram aqui sem liberdade,

mas seus descendentes caminham hoje por esta mesma terra em liberdade.

E talvez seja essa a maior beleza de todas.

A memória continua caminhando.

Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 17/09/2026
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