

AS HISTÓRIAS DA MINHA TIA - Contos do sertão de AssaréNa minha infância, no Sítio São João, município de Assaré, no Ceará, não havia televisão, internet, celular e, na nossa região, nem rádio. À noite, a escuridão tomava conta do sertão. A luz vinha da lamparina e, quando o inverno era generoso, apareciam os vagalumes piscando no meio da noite. Era nesse cenário que minha tia começava a contar suas histórias. Ela era solteira, não tinha filhos e gostava muito dos sobrinhos. Sempre havia algumas crianças ao redor dela. Às vezes ela mandava a gente buscar milho na roça. Nós íamos felizes. Sabíamos que, na volta, viria a recompensa: — Agora vou contar uma história! E sentávamos ao redor dela, esperando. Naquela época, não sabíamos que minha tia era uma escritora sem livro. Ela inventava personagens, criava mistérios e transformava o sertão num mundo cheio de assombrações. O FURRUGUER Entre todas as histórias, uma das que mais chamava nossa atenção era a do Furuguer. Até hoje não sei explicar direito quem era aquele personagem. Talvez nem minha tia soubesse. O FURRUGUER existia porque ela fazia existir. Era um personagem misterioso, daqueles que apareciam quando ninguém esperava. Minha tia começava devagar. Falava baixo. Fazia silêncio. Depois olhava para nós e dizia que aquilo tinha acontecido de verdade. Pronto. Estava criado o medo. Nós ficávamos imaginando o Furuguer andando pelas estradas escuras do sertão, enquanto o vento balançava os galhos das árvores e a lamparina projetava sombras nas paredes. E ninguém queria ser o primeiro a sair sozinho para fora de casa. O BODE DOS OLHOS DE FOGO Mas havia outra história que assustava ainda mais: a do bode dos olhos de fogo. Segundo minha tia, existia um bode que aparecia durante a noite. Seus olhos brilhavam como brasas. Ele surgia no meio da escuridão e ficava parado, olhando para quem tivesse a coragem — ou a infelicidade — de encontrá-lo. Quando minha tia chegava nessa parte, aumentava o suspense. Nós olhávamos para a porta. Depois para a janela. Depois uns para os outros. E ninguém tinha coragem de perguntar: — E depois? Porque sabíamos que a resposta poderia ser ainda pior. A MULHER DE VESTIDO BRANCO Também existia a mulher de vestido branco. Ela aparecia nas estradas quando a noite já estava avançada. Ninguém sabia de onde vinha. Ninguém sabia para onde ia. Apenas aparecia. Minha tia dizia que quem encontrasse aquela mulher deveria tomar cuidado. E nós, crianças, começávamos a imaginar o vestido branco surgindo no meio da estrada. Uma simples pessoa caminhando à noite podia se transformar, na nossa imaginação, na própria assombração. O CASAL QUE SOLTAVA FAÍSCAS Havia também uma história muito estranha. Era a história de um casal que se encontrava durante a noite e, quando os dois ficavam próximos, começavam a sair faíscas de fogo. Não sei de onde minha tia tirava aquelas ideias. Mas para nós aquilo era absolutamente real. No sertão, qualquer clarão distante podia virar uma história. Qualquer barulho no mato podia ser uma assombração. Qualquer sombra podia ser um fantasma. E minha tia sabia exatamente como alimentar nossa imaginação. O HOMEM QUE ANDAVA SOBRE A ÁGUA Outra história fascinante era a do homem que caminhava sobre as águas do açude. Ele chegava à margem, entrava na água e simplesmente começava a caminhar. Não afundava. Não nadava. Caminhava. Para uma criança de dez anos, aquilo não era impossível. Era apenas misterioso. Talvez por isso aquelas histórias tenham ficado tão vivas na minha memória. O SACI-PERERÊ O Saci também fazia parte daquele universo. Naquele sertão, as lendas brasileiras não estavam nos livros. Elas estavam nas conversas. Estavam nas noites. Estavam na imaginação dos adultos e das crianças. O Saci podia estar escondido em qualquer lugar. E nós acreditávamos. Afinal, quem poderia provar que ele não existia? A GRANDE CONTADORA Hoje, tantos anos depois, compreendo uma coisa que naquela época eu não conseguia entender. Minha tia era uma contadora de histórias. Ela não precisava de computador. Não precisava de televisão. Não precisava de livros. Sua imaginação era sua biblioteca. Sua voz era sua televisão. E nós éramos sua plateia. Ela pegava a pobreza da nossa infância e transformava aquilo em aventura. Enquanto o mundo moderno ainda não havia chegado ao nosso sertão, ela criava mundos dentro da nossa cabeça. Talvez tenha sido por isso que aquelas histórias nunca morreram. Minha tia já se foi. Muitos dos lugares da minha infância mudaram. As estradas mudaram. A tecnologia mudou. O mundo mudou. Mas quando me lembro dela reunindo os sobrinhos para contar uma história, volto imediatamente para aquele sertão da minha infância. Consigo quase enxergar a lamparina. Consigo imaginar o silêncio da noite. Consigo ouvir a voz dela. E, de repente, aparece novamente o Furuguer. Depois o bode dos olhos de fogo. A mulher de vestido branco. O casal soltando faíscas. O homem caminhando sobre o açude. E o Saci escondido em algum lugar da nossa imaginação. Talvez minha tia nunca tenha escrito um livro. Mas ela deixou um livro dentro de mim. Um livro feito de lembranças. E hoje, tantos anos depois, sou eu quem está escrevendo aquelas histórias. Minha tia inventava os personagens. Eu guardei as histórias. E o tempo fez o resto. Porque algumas pessoas não deixam livros escritos em papel. Deixam histórias escritas na memória de quem as amou. Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 16/09/2026
Alterado em 16/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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