

A TRUPE DA REPÚBLICA DAS BANANEIRAS
Recebi lá em casa, certo dia,
Uma trupe ligeira, danada, De cabos eleitorais da família Que chegou zoada. Mal pisaram dentro da sala, Já vieram com fala ensaiada. — Seu moço, vote no candidato! Ele tem plano pra todo lugar: Do sertão até o litoral, Promessa não vai faltar! De norte a sul deste país, Só se ouve o povo sonhar! O cabra falava ligeiro, Nem me deixava respirar; Era promessa em cima de promessa, Sem tempo sequer pra pensar. Parecia um rádio quebrado Que não parava de tocar. Disse que lá no Nordeste Ia chover de montão: O roceiro plantava milho Até nas cabeças dos tocos do chão. Toda lavoura do sertão Teria água de sobra na mão. Depois mudou de conversa E foi falar do estrangeiro: — Vamos fechar com o Trump, Num acordo bom e certeiro! Damos umas terras raras pra ele E pegamos o dinheiro todo ligeiro. Assim ninguém precisa trabalhar, Nem hoje, nem no mês inteiro! Eu já fiquei desconfiado Daquela grande invenção; Promessa daquele tamanho Só podia esconder confusão. Mas o cabra não se calava, Seguia firme na pregação. — Aqui tudo será feito Com inteligência artificial; O povo terá tempo livre, Num descanso fenomenal: Vai pescar, passear e dormir, Sem esforço, sem trabalho braçal! Foi aí que veio a ideia Mais doida daquele lugar: — Vamos mudar o nome do Brasil, Pra ninguém mais reclamar! Será quintal do TRUMP, Com bananeira a enfeitar. O nome novo desta terra Vai ser República das Bananeiras! Nesse momento o sujeito Parou pra tomar fôlego. Foi quando eu achei a brecha E soltei meu desafogo: — Meu amigo, escute bem, Que agora eu lhe digo o jogo! Se eu não tivesse candidato Pra escolher na eleição, Votava numa jega parida, Numa porca sem disposição, Numa vaca sem nenhuma teta, Num cachorro cheio de sarna no chão. Votava num jumento manco, Com as pernas todas quebradas, Numa alma penada errante, Pelas estradas assombradas, No lobisomem de Romeu Camacho Ou em assombração pagã das encruzilhadas! Fiz uma pausa comprida, Pra deixar clara a questão: — Mas em candidato bolsonarista Eu não boto meu voto, não! Não tenho ódio do capitão, O que tenho é rejeição é REPULSA. Desprezo é pelas ideias Dessa família tão CANALHA: Quando essa turma passa, Deve ser a estrada benzida e salgada. Jogue sal grosso no caminho, Pra espantar a má jornada! O cabo ficou furioso, Com a cara toda fechada: — Escute aqui, seu moço! Sua morada já está marcada. Quando o capitão voltar, Sua vida será apertada! Este mundo ficará pequeno Pra sua pessoa morar nesta estrada! Olhei bem para o sujeito E respondi sem vacilar: — Então procure outro canto, Se também quiser se salvar. Pois nessa tal República Que vocês vivem a anunciar, Eu não pretendo morar, Nem de longe, nem de passar! Ele fez uma cara feia, Parecia um cão acuado. Eu ainda dei mais um mote, Deixando o cabra danado: — Se não tivesse candidato, Eu votava até no Zé Carlos, Eletricista sem caráter Do Saci-Pererê dos atalhos. Votava no próprio Saci, Com seus pulos e seus trabalhos! Votava em qualquer assombração, Em qualquer figura ligeira; Só não voto em candidato De família BOLSONARISTA INTEIRA! Pode trazer mil promessas: Meu voto não muda de maneira! Os cabos deram meia-volta, Saíram sem dizer mais nada. Foram sumindo na esquina, Com a conversa derrotada. Fiquei olhando pela janela, Vendo a rua sossegada. Quando sumiram de vista, Algo estranho ficou no ar: Um cheiro forte de enxofre Começou a se espalhar no ar. Foi então que compreendi O que estava a se passar: Eu não falava com cabos De campanha eleitoral. Era a própria coisa ruim, Num serviço sobrenatural, Fazendo propaganda ardida Da República das Bananeiras infernal! E naquele dia aprendi, Guardando bem a lição: Quando a promessa é grande demais E não cabe na razão, Até o diabo precisa De cabo eleitoral na eleição!
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 11/09/2026
Alterado em 13/09/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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