Sol Flamejante do Sertão

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O CANDIDATO QUE PROMETIA ATÉ A CHUVA

Quando eu ainda era um jovem eleitor, apareceu em minha casa um candidato a prefeito de minha querida Assaré, no Ceará.

Ele chegou cheio de entusiasmo e começou a fazer promessas. E que promessas!

Falava tão rápido que não dava tempo nem de respirar, muito menos de alguém fazer uma pergunta.

— Vamos construir pontes, escolas, campos de futebol com vestiários e treinadores! E vocês ainda poderão disputar campeonatos estaduais e até internacionais!

Eu ouvi atentamente até que perdi a paciência:

— Doutor, aqui não tem rio. Para que construir ponte?

Ele nem piscou:

— Não se preocupe! Nós vamos construir o rio também!

Eu pensei que já tinha ouvido tudo. Mas estava apenas começando.

— Vamos fazer um grande açude, cheio de peixes, para vocês também poderem disputar campeonatos de pesca!

Olhei para o nosso pé de serra e perguntei:

— Mas onde o senhor pretende construir esse campo de futebol? Aqui quase não existe uma planície!

Ele respondeu com a maior tranquilidade:

— Vamos retirar essas pedras da serra. Com as pedras, construiremos uma grande fábrica de cimento. E com o cimento faremos todas as obras da região!

Eu ainda tentei argumentar:

— Doutor, não sei se o senhor sabe, mas aqui nessa região do Ceará chove muito pouco. Esse açude nunca vai encher!

Ele sorriu e respondeu:

— Também não precisa se preocupar com isso. Já estamos providenciando as chuvas!

Naquele momento comecei a desconfiar de que aquele homem não queria apenas ser prefeito.

Ele queria ser prefeito, governador, presidente da República e, quem sabe, até controlar o clima do planeta.

E as promessas continuaram:

— Se vocês votarem em mim, não vão se arrepender. Vamos mudar completamente a situação dessa região!

— Isso é só o começo — continuou ele. — Depois vocês vão me eleger governador do Ceará. Aí vocês vão ver o que vou fazer por este Estado.

E, sem diminuir a velocidade:

— Depois chegarei à Presidência da República!

A essa altura, eu já estava esperando ele prometer uma estação espacial em Assaré.

Mas ainda faltava muito.

— Vamos construir estradas rolantes. Todas as estradas serão rolantes! Os carros não vão mais gastar gasolina, porque serão movidos a vento!

Pensei comigo:

“Esse homem não está fazendo campanha para prefeito. Está apresentando o futuro da humanidade!”

Mas ele continuou:

— Nas cidades, tudo funcionará com inteligência artificial. Ninguém mais ficará doente, porque teremos internet e inteligência artificial em qualquer lugar onde vocês estiverem!

E então veio a promessa definitiva:

— Quando eu implantar a internet e a inteligência artificial, cada pessoa poderá escolher quantos anos quer viver!

Foi aí que eu pensei:

“Agora acabou!”

Mas não acabou.

Ele ainda tinha tantos projetos para apresentar que, segundo suas próprias palavras, três mandatos não seriam suficientes para explicar tudo.

Foi então que percebi uma coisa:

Aquilo não era um sonho.

Não era conto de fadas.

Não era pesadelo.

Era um programa eleitoral.

Um programa eleitoral de um candidato a prefeito da minha linda Assaré.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior lição dessa história.

Promessa de campanha pode até fazer a gente sonhar. Mas eleitor precisa aprender a perguntar:

Tem rio para construir a ponte?

Tem água para encher o açude?

Tem terreno para construir o estádio?

Tem dinheiro para pagar a obra?

Existe projeto?

Existe planejamento?

E, principalmente: quem vai fiscalizar tudo isso depois da eleição?

Porque promessa eleitoral não deveria ser competição para descobrir quem promete mais.

Deveria ser compromisso com aquilo que realmente pode ser feito.

Eu já ouvi muitas promessas na vida.

Mas aquela foi especial.

O candidato prometeu construir a ponte antes de construir o rio, o açude antes de conseguir a chuva, o campo antes de encontrar o terreno, a fábrica antes de retirar as pedras e, no final, até prometeu que cada cidadão poderia escolher quantos anos queria viver.

Só faltou uma promessa:

ressuscitar o eleitor que acreditasse em tudo aquilo depois da eleição. 😂

E é por isso que conto esta história.

Não para dizer em quem alguém deve votar.

Mas para lembrar uma coisa que vale para qualquer eleição:

O eleitor pode até gostar de ouvir promessas.

Mas, antes de entregar o voto, deve pedir ao candidato aquilo que vale mais que qualquer discurso: realidade, projeto, prazo, orçamento e compromisso.

Porque depois que a urna fecha...

a promessa fica na boca do político, mas a conta fica no bolso do povo.

Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 11/09/2026
Alterado em 11/09/2026
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