Sol Flamejante do Sertão

Aprecie sem moderação

Textos


CORDEL DO PATRONO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Paulo Freire, grande educador,

Pelo povo se interessava,

No sertão do nosso Brasil,

A esperança semeava.

Em mil novecentos e sessenta e três,

A alfabetização começava.

Com os camponeses do Nordeste,

Iniciou uma missão:

Ensinar a ler as palavras,

Compreender a exploração.

Foi chamado de comunista

E perseguido pela repressão.

Vou contar uma história

Que vivi lá no sertão,

De um tempo de muita seca,

De trabalho e exploração,

Quando o pobre não sabia

Defender o próprio chão.

Eu plantava milho e feijão,

Mandioca e algodão,

Quando a chuva ajudava,

Tinha fartura no meu chão,

E eu agradecia a Deus

Pela bênção da plantação.

Eu e minha companheira

Vivíamos com simplicidade.

A terra não era nossa,

Mas a gente tinha esperança

De colher o nosso sustento

Com trabalho e dignidade.

Nós não sabíamos ler

Nem escrever uma palavra.

Éramos gente do sertão,

Onde quase não tinha escola,

E a pobreza, meu amigo,

Fechava muitas portas.

Até que, um dia, chegou

Um homem na nossa morada.

Disse que aquelas terras

Tinham dono e eram cercadas,

E que tudo o que a gente plantasse

Tinha que ir pra casa-grande.

— Tudo o que vocês plantarem

Vai pra minha propriedade.

Vocês recebem um salário

E compram do jeito que eu mandar.

Sou eu quem vende o que vocês precisam;

Essa é a realidade.

Foi assim que começou

Uma vida de exploração.

A gente trabalhava o dia inteiro,

Sem conhecer outro caminho,

E o pouco que recebia

Voltava pro patrão.

O coronel da fazenda

Não tinha pena do trabalhador.

Mandava serviço pesado

E não ligava pra nossa dor.

Pra ele, pobre era só braço

Trabalhando a seu favor.

E os políticos daquela época

Só lembravam do sertanejo

Quando chegava a eleição,

Com promessa e gracejo.

Depois sumiam da estrada,

Deixando o povo no desprezo.

Foi quando apareceu

Um professor diferente.

Paulo Freire chegou

Conversando com a nossa gente,

Ensinando que a palavra

Também muda a mente.

Ele ensinou as letras,

A juntar palavras e pensar.

O que antes parecia segredo

Começou a clarear.

Cada palavra aprendida

Fazia uma luz se acender.

Paulo Freire, companheiro,

Patrono da educação,

Fez da leitura uma ponte

Entre o saber e a ação.

Mostrou que a voz do povo

Também faz transformação.

Não trouxe lição pronta

Nem mandou ninguém se calar.

Começou pela nossa experiência,

Pelo nosso jeito de falar,

Porque ninguém ensina sozinho:

Todo mundo pode aprender e ensinar.

Mas o coronel percebeu

Que alguma coisa mudava,

Porque quem aprende a ler

Já não aceita qualquer conversa.

Começa a fazer perguntas

Sobre tudo que enfrentava.

Um dia, ele apareceu

Com a cara fechada e dura:

— Não quero esse barbudo

Perto dessa criatura!

Se ele voltar por aqui,

Vai faltar trabalho e moradia!

E ainda chamou de comunista

Quem levava educação,

Dizendo que aquele homem

Trazia má orientação.

Mas ninguém explicava direito

Onde estava a tal subversão.

A gente ficou com medo,

Pois o coronel tinha poder.

Éramos trabalhadores

Sem saber como responder.

Mas, dentro da nossa cabeça,

Começava um novo amanhecer.

Paulo não ensinava ódio

Nem queria confusão.

Ensinava o povo humilde

A entender sua condição,

A ler as letras da vida

E também a exploração.

Porque quem aprende a ler

Não lê só o papel:

Começa a enxergar o mundo,

A separar o falso do fiel,

E pode descobrir direitos

Que pareciam coisa do céu.

Foi isso que incomodou

Quem mandava naquele lugar.

Não era o homem barbudo

Nem seu jeito de ensinar;

Era o pobre descobrindo

Que também podia pensar.

A terra podia ser dele,

A colheita podia também,

Mas tinha uma riqueza

Que ninguém tirava de ninguém:

Quando o conhecimento chega,

Fica com quem o tem.

Hoje eu lembro da casinha,

Da roça e da plantação,

Do milho, do feijão,

Da seca e da privação,

Mas lembro principalmente

Da força da educação.

Pois aprendi uma verdade

Que guardo no coração:

Pode faltar terra ao pobre,

Pode faltar pão na mesa,

Pode faltar muita coisa

Num sertão de incerteza;

Mas, quando o povo aprende a ler,

Começa a enxergar

Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 05/09/2026
Alterado em 05/09/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras