

Cordel da Mortalidade Infantil — Como Era Difícil Sobreviver no Nordeste
Vou contar neste cordel
Uma história verdadeira, De um tempo muito difícil Da nossa vida brasileira. É memória do passado, De uma infância castigada Pela pobreza e pela dor Que existia na fronteira. Nos anos cinquenta havia Muito pouco para se ter, A doença era uma ameaça Que fazia a mãe sofrer. Quando uma criança adoecia, Muitas vezes não havia Um médico para atender, Nem remédio para valer. No Brasil daquele tempo Era grande a mortalidade, Milhões viviam sofrendo Com a falta de assistência. Em mil novecentos e cinquenta, A estatística apresenta Uma triste realidade: Morrer antes do primeiro ano Era uma possibilidade. O IBGE hoje nos mostra Na história da população: Em mil novecentos e cinquenta Era enorme a proporção. Mais de cento e trinta crianças Por mil nascidas no chão Não chegavam ao primeiro ano, Uma triste situação. E a vida média do brasileiro, Naquele tempo tão cruel, Girava perto dos quarenta E três anos no papel. Era uma vida apertada, Com muita estrada enfrentada, Debaixo do mesmo céu. Mas quem viveu no Nordeste Conhece ainda mais a dor, Pois a pobreza castigava O pequeno agricultor. Faltava água, faltava comida, Faltava cuidado e guarida, E muitas vezes faltava doutor. Eu lembro da minha infância, Da terra onde eu nasci, Das histórias que ficaram Guardadas dentro de mim. Havia perto de minha casa Um pequeno campo de paz, Onde muitos anjinhos Não voltavam nunca mais. E essa lembrança me corta Quando começo a recordar: Tenho seis irmãos queridos Que não puderam completar Nem sequer o primeiro ano. Foram vítimas do abandono De um tempo difícil de passar. Não quero aqui inventar Uma doença para explicar, Mas sei que naquele tempo Era muito fácil adoecer. Diarreia e desidratação, Infecções e pneumonia, Podiam levar uma criança Sem ninguém poder socorrer. A coqueluche era um medo, Que fazia o peito doer. Uma criança tão pequena Começava a padecer. E a família desesperada Olhava, quase sem nada, Sem saber o que fazer. Hoje temos outro caminho, Tem ciência e prevenção. Vacinas protegem crianças Contra doenças de então. A medicina avançou, Muita coisa transformou, E salvou uma geração. Não foi milagre de um dia, Nem aconteceu por acaso. Foi pesquisa, foi ciência, Foi trabalho passo a passo. Foram pessoas dedicadas Em laboratórios e estradas Combatendo o fracasso. A vacina contra a varíola Tem história neste país. O Brasil fez campanhas Que mudaram nossa matriz. Com esforço e vacinação, A doença foi derrotada E deixou de ser cicatriz. Por isso fico sentido Quando vejo alguém falar Que vacina é coisa ruim E que devemos rejeitar. Quem conheceu aquele passado Sabe quanto foi pesado Ver uma criança chorar. Eu respeito a liberdade, Mas uma coisa vou dizer: Desinformação sobre vacina Pode fazer alguém morrer. Quando a ciência é atacada E a mentira é espalhada, Quem sofre é quem vai viver. Não quero fazer deste verso Uma guerra ou discussão. Meu desejo é tão somente Defender a proteção. Que pai, mãe e avó pensem Nas crianças que ainda crescem E cuidem da vacinação. Porque eu vivi aquele tempo, Eu conheço aquela dor. Não falo apenas de números, Falo também de amor. Falo dos meus seis irmãos, Que ficaram na lembrança Como estrelas na esperança De um mundo muito melhor. Hoje quando vejo uma vacina Protegendo uma criança, Eu lembro daquele tempo E renasce a esperança. Penso nos anjos que partiram, Nos sonhos que não se cumpriram, E agradeço à ciência Por defender a nossa infância. Que ninguém apague a história, Nem transforme dor em mentira. Quem esquece o próprio passado Não sabe o caminho que mira. A memória é uma lição: Ciência, cuidado e prevenção Podem salvar uma vida. Meu Nordeste foi sofrido, Mas também soube resistir. Sobreviveu à seca e à fome, Aprendeu a persistir. E eu sou filho dessa terra, Carrego dentro da memória Cada lágrima e cada história Que o tempo não fez sumir. Por isso escrevo este cordel Com respeito e emoção: Para os irmãos que partiram, Para toda uma geração. Que os anjinhos do passado Nunca sejam esquecidos, E que os meninos de hoje Tenham um futuro protegido. Se hoje a criança sobrevive, Se pode crescer e brincar, Se existe vacina disponível Para ajudar a proteger, Devemos valorizar a ciência, A pesquisa e a consciência De que é melhor prevenir Do que depois lamentar. Assim termino meus versos Com uma simples reflexão: Quem conheceu aquele passado Sabe o valor da vacinação. Que a memória seja um farol, Que ilumine nosso caminho, Para que nenhum outro anjinho Se perca por falta de proteção.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 15/08/2026
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