Sol Flamejante do Sertão

Aprecie sem moderação

Textos

MINHA HISTÓRIA EM FORTALEZA — PRIMEIRA PARTE
Era uma noite de janeiro de 1966. Eu estava chegando a Fortaleza, Ceará, depois de uma longa viagem que parecia não ter fim.

Eu havia saído de Juazeiro do Norte às duas horas da madrugada. Foram dezesseis horas dentro de uma Maria Fumaça, atravessando o Ceará, até finalmente chegar à capital.

Era por volta das dez da noite quando desci do trem. Fortaleza estava quente, muito quente. Eu carregava apenas uma pequena mala e, dentro dela, algumas poucas coisas que eu tinha conseguido levar comigo.

Atravessei a praça da estação e entrei na Rua Doutor João Moreira. Eu não conhecia praticamente ninguém em Fortaleza. Parei em frente a uma barbearia e encontrei um jovem barbeiro chamado Raimundo.

Olhei para ele e perguntei:

— Boa noite. Você corta cabelo?

Ele me olhou, talvez esperando um cliente.

Então expliquei:

— Não. Eu estou chegando de Juazeiro do Norte. Seu irmão é meu amigo e mora em Juazeiro. Ele me mandou procurar você e pediu que me deixasse dormir aqui esta noite. Amanhã vou para a casa do meu tio.

Raimundo me fez algumas perguntas. Depois de ouvir minha história, apontou para um canto da barbearia e disse:

— Pode armar sua rede aqui.

Fiquei feliz. Naquela noite, aquele simples gesto de Raimundo representou muito para mim. Eu não tinha dinheiro. Na verdade, não tinha sequer um centavo no bolso.

Armei minha rede e dormi ali mesmo.

Na manhã seguinte, embolei a rede, coloquei-a dentro da mala, agradeci a Raimundo pela acolhida e saí em busca do meu tio.

Fui até a agência do Expresso Cearense, onde ele trabalhava como motorista. Para minha surpresa, soube que ele estava viajando para São Paulo.

O gerente da agência, porém, foi muito gentil comigo e me informou onde meu tio morava.

Segui até a Praça José de Alencar e procurei saber como chegar ao endereço. Entrei no ônibus sem ter dinheiro para pagar a passagem. Fui me virando como podia, conversando com o cobrador e tentando explicar minha situação.

Depois de algum tempo, cheguei a um lugar chamado Parangaba Sul.

Encontrei a casa onde meu tio havia morado e bati à porta. Uma senhora veio me atender.

Perguntei pelo meu tio.

Ela respondeu:

— Eles moravam aqui, mas se mudaram para o bairro Henrique Jorge.

Naquele momento, eu já estava quase desmaiando de fome. Tinha passado muitas horas viajando e andando pela cidade sem colocar praticamente nada no estômago.

Aquela senhora não sabia o novo endereço, mas conseguiu me explicar como eu poderia chegar à Rua Alameda Prado, onde meu tio estava morando.

Voltei para pegar os ônibus necessários. Mais uma vez, sem dinheiro para pagar a passagem, fui conversando com os cobradores e tentando chegar ao meu destino.

Finalmente, depois de tantas horas de viagem, caminhada, fome e incerteza, por volta das cinco da tarde cheguei à casa do meu tio.

Bati à porta.

Quem me recebeu foi sua esposa, minha tia Joana.

Ela me mandou entrar e, com aquele jeito acolhedor que nunca esqueci, perguntou:

— Você quer tomar um banho primeiro ou quer comer alguma coisa?

Eu não tive dúvida.

Respondi:

— Eu quero comer alguma coisa. Estou com muita fome.

Naquele instante, aquela pergunta simples de minha tia Joana pareceu a coisa mais bonita do mundo.

Ela era um amor de tia.

O casal tinha três filhos: uma menina chamada Sueli e dois meninos, José e Cícero.

Eu havia chegado a Fortaleza sem dinheiro, sem conhecer direito a cidade e sem saber o que o futuro me reservava.

Mas naquele dia descobri que, mesmo quando a gente chega a um lugar estranho carregando apenas uma pequena mala e muitos sonhos, sempre pode aparecer uma mão amiga para nos ajudar a continuar a caminhada.

E assim começava a minha história em Fortaleza.

Aquela foi apenas a primeira página de uma grande saga que ainda estava por acontecer...

Continua.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 12/08/2026


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras