

ARATAMA, ONDE A INFÂNCIA AINDA DANÇAHoje, 10 de agosto, estamos no inverno. E, sendo inverno, não tenho como reclamar do frio nem da chuva fina e intermitente que caiu durante todo o dia. Por causa do tempo, fiquei em casa. Nem fui fazer meu pedal da manhã. Mas quem disse que fiquei parado? Meu corpo ficou em casa, mas minha imaginação pegou a estrada e viajou muitos anos para trás. Pela manhã, fui ao Assaré. Agora à tarde, minha viagem continuou até Aratama, distrito de Assaré, no sertão do Ceará. E lá estava eu novamente na minha infância. Era dia de festa de São Sebastião. Pela manhã, fui assistir à Santa Missa na igreja de São Sebastião. Depois da celebração, o padre Cristiano, como sempre, foi brincar com as crianças. E eu era uma delas. Lembro-me de uma das brincadeiras. O padre pegou uma caneta-tinteiro, colocou sobre o lábio superior e lançou o desafio: — Quero ver quem consegue segurar a caneta sem deixar cair! Começou a brincadeira. No final, estávamos todos de bigode azul. O padre Cristiano devia ter naquela época seus bons anos de vida, mas, quando estava rodeado pelas crianças, parecia ter o espírito de uma delas. Era uma criança grande brincando com crianças pequenas. Nós ficávamos todos ao redor dele. Talvez seja por isso que aquela lembrança tenha ficado tão viva em mim. Porque existem pessoas que não envelhecem dentro da nossa memória. O tempo passa, os cabelos ficam brancos, os anos se acumulam, mas a alegria permanece jovem. E a festa de São Sebastião continuava. À tarde, tinha o baile no salão do seu Antônio Liar. Às seis horas, Santa Missa. Depois da missa, o leilão. Terminava o leilão? Então começava novamente o baile no salão do seu Antônio Liar. E naquela noite ninguém queria saber de relógio. O sanfoneiro Luiz da Moita, com sua sanfona vermelha e branca, tocaria até o sol raiar. O baile terminava e já era hora de ir novamente para a missa. E lá estava o padre Cristiano, vestido com sua batina branca, esperando os fiéis para celebrar mais uma Santa Missa. Depois da missa? Era hora de voltar para o salão. Já eram nove horas da noite e Luiz da Moita já estava com sua sanfona vermelha e branca, ensaiando. Ninguém sabia a hora em que aquele baile terminaria. Talvez terminasse somente quando o último casal cansasse de dançar. Talvez quando a sanfona silenciasse. Ou talvez quando o sol aparecesse no horizonte anunciando um novo dia. Hoje, tantos anos depois, fiquei trancado em casa por causa do frio e da chuva. Mas descobri que existe uma estrada que nenhuma chuva consegue interditar. A estrada da memória. Por ela, voltei ao sertão do Ceará. Voltei ao Assaré. Voltei a Aratama. Voltei à igreja de São Sebastião. Voltei à infância. Vi novamente o padre Cristiano brincando com as crianças. Vi os bigodes azuis feitos de tinta. Ouvi a sanfona vermelha e branca de Luiz da Moita. Vi o salão de seu Antônio Liar cheio de gente. Ouvi o barulho do leilão. E, por alguns instantes, fui novamente aquela criança que ficava em volta do padre, esperando a próxima brincadeira. Assim foi meu dia. Não fiz meu pedal. Não saí de casa. Não enfrentei a chuva fina do inverno. Mas fiz uma viagem muito mais longa. Viajei no tempo. E cheguei a Aratama. Distrito de Assaré. Onde a minha infância ainda mora. Onde a sanfona ainda toca dentro da minha memória. Onde o padre Cristiano ainda é aquela criança grande que brincava com as crianças. E onde, até hoje, quando fecho os olhos, consigo ouvir: “Ô Luiz da Moita, puxa o fole!” E a sanfona começa a tocar. Até o sol raiar. Yeah! Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 11/08/2026
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