Sol Flamejante do Sertão

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A HORA DA AVE-MARIA
Hoje, viajei para dentro da minha infância. Retornei ao Assaré dos anos 1960, à Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, onde vivi uma das mais belas lembranças da minha vida.

Cheguei cerca de trinta minutos antes da missa das seis horas. A igreja ainda se preparava para receber os fiéis, mas algo já preenchia aquele espaço sagrado: uma música que eu jamais havia ouvido antes.

Era a Ave-Maria, de Franz Schubert.

Eu não sabia quem era Schubert. Não sabia que aquela música atravessaria séculos, nem imaginava que estava diante de uma das mais belas melodias que meus ouvidos já conheceriam.

Fiquei profundamente fascinado.

Até hoje, confesso, não ouvi outra música que me tocasse da mesma forma.

Aquela melodia ficou gravada em meu ser.

Antes da missa das seis, havia a hora da Ave-Maria. Os músicos, por vezes, se revezavam, e aquelas mulheres religiosas, as beatas, pareciam possuir um gosto refinado. Tinham sensibilidade para a música erudita, mesmo vivendo em um lugar onde quase tudo era simples.

Quando, hoje, observo um pôr do sol bonito, algo se transforma dentro de mim. O céu muda de cor e, de repente, retorno no tempo.

Volto para Assaré.

Volto para a igreja.

Volto para a hora da Ave-Maria.

É como se aquela música tivesse construído uma ponte entre o menino que fui e o homem que me tornei.

Mas, após a missa, eu precisava retornar ao Sítio São João e à minha realidade.

E que realidade era aquela?

Era um lugar praticamente isolado do restante do mundo.

Não havia estrada. Escola, nem pensar. Não havia rádio para ouvirmos música. A comunicação com a cidade era extremamente difícil. Às vezes, passavam-se anos sem que víssemos alguém vindo da cidade.

Refiro-me ao sertão dos anos 1960.

Era uma região muito pobre e atrasada. No entanto, mesmo nessa pobreza, havia algo que parecia nunca faltar: pessoas enriquecendo por meio da política.

No período das eleições, tudo se transformava.

As estradas, que durante anos permaneciam abandonadas, de repente começavam a ser recuperadas. Os chamados coronéis visitavam nossa região.

Chegavam com uma autoridade que ninguém ousava questionar:

— Compadre, nosso prefeito vai ser o Onofre.

E todos permaneciam em silêncio.

Quem cala, consente.

Assim era a vida no sertão de Assaré.

Ai daquele que ousasse se opor aos coronéis.

No dia da votação, surgiam os caminhões pau de arara para transportar os eleitores. Para alguns, havia comida e cachaça. Após a votação, o povo era reconduzido aos sítios.

Quando o prefeito tomava posse, realizava-se um grande baile.

E parecia que isso era tudo o que restava ao povo.

Depois da festa, os políticos desapareciam.

Ninguém mais ouvia falar deles.

As promessas feitas durante a campanha eram esquecidas pelo caminho, assim como tantas estradas que só eram lembradas quando uma nova eleição se aproximava.

Os políticos se recolhiam, permaneciam ocultos, e o povo retornava à sua vida habitual.

Era assim o sertão de Assaré que conheci em minha infância.

Um sertão pobre, isolado, marcado pela força dos coronéis e pelas dificuldades de um povo que tinha muito pouco.

Mas, no meio de tudo isso, havia também beleza.

Havia fé.

Havia a Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores.

E havia aquela música.

A Ave-Maria de Schubert.

Talvez por isso, quando hoje observo um pôr do sol daqueles que parecem pintados por Deus, não consigo apenas contemplá-lo.

Eu viajo.

O sol se põe diante dos meus olhos, mas, dentro de mim, renasce o menino de Assaré.

O menino que chegou cedo à igreja.

O menino que não conhecia Schubert.

O menino que ouviu, pela primeira vez, uma melodia que jamais saiu de sua alma.

E assim, muitos anos depois, continuo ouvindo a Ave-Maria.

E, quando ela ressoa dentro de mim, a viagem recomeça.

Volto para Assaré.

Volto para o Sítio São João.

Volto para a minha infância.

Volto para a fascinante hora da Ave-Maria.
Antonio Laurentino Sobrinho
Enviado por Antonio Laurentino Sobrinho em 11/08/2026
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